[ARTIGO] Uma resposta tomista-católica ao dilema do filme "O Conto da Princesa Kaguya" (CONTÉM SPOILER).


  
O Conto da Princesa Kaguya (2013)

 

O longa-metragem "O Conto da Princesa Kaguya" (Kaguya-hime no Monogatari, 2013) é uma animação japonesa produzida pelo famoso e aclamado estúdio de animação Studio Ghibli (responsável por filmes como A Viagem de Chihiro [2001] e Meu Amigo Totoro [1988]) e dirigido por Isao Takahata, o mesmo diretor do aclamado filme "O Túmulo dos Vagalumes" (1988). Nesse artigo, apresentaremos de que modo o tomismo e a Revelação Cristã solucionam de modo satisfatório os dilemas internos tanto do conto original quanto da obra de animação de Takahata. Inicialmente, tratarei dos pontos importantes do filme que servirão para nossa reflexão (ignorarei, por exemplo, a disputa dos princípios), depois tratarei especificamente da solução do dilema do filme me utilizando das categorias do pensamento tomista e dos dados da Revelação Cristã.


O Conto da Princesa Kaguya é um filme que adapta o milenar conto japonês chamado "O Cortador de Bambu", onde um homem que exercia a função que nomeia o conto (um taketori) encontra uma pequena menina dentro de um bambu que estava brilhando, esse encontro inesperado faz com que ele julgue que a menina é uma dádiva dos deuses e decide cuidá-la como sua filha. Depois de encontrar a pequenina, foi a vez de encontrar bastante ouro que julga que deve utilizá-lo para cuidar da garotinha (em algumas versões do conto o ouro era o pagamento das despesas da "viajante"). A menina recebeu o nome de Kaguyahime (Princesa Kaguya), que cresceu tão rapidamente quanto um bambu e se tornou uma linda mulher em apenas três meses e sua mera presença transmitia paz, saúde e alegria. De fato, era uma divindade. 


A animação de Isao Takahata, apesar de seguir a linha do conto original, possui uma adaptação original e autêntica, que, segundo o próprio diretor, teve a intenção de transmitir uma visão moderna do conto. A origem divina da princesa, a aparição do ouro, a disputa entre os príncipes por sua mão e o destino inelutável são alguns dos elementos presentes tanto no conto (que possui várias versões com pequenas mudanças apesar de conservar uma mesma estrutura) quanto no longa. No entanto, o filme cria uma situação de inadaptação (que é recorrente na obra) entre a vida da princesa no campo e sua vida na corte da nobreza que não transparecem no conto original (e sobre isso ainda falaremos).

 

 

Mas por que Kaguyahime desceu da Lua para o mundo terreno? Acerca disso o próprio conto original pode variar, indo desde um silêncio com relação ao motivo até à ideia de uma punição ou castigo educativo, ou seja, o desejo da princesa de conhecer a Terra teria como punição o conhecimento do sofrimento presente na vida terrena que é fruto do desejo de tal vida, algo alinhado ao pensamento budista que permeia o conto original, fazendo com que ela perceba que é ruim ceder a esses desejos. No filme, há um silêncio quanto à ideia de punição, mas explicitamente apresenta a princesa como uma divindade que teve conhecimento de que alguém já foi até a Terra e até hoje sente saudade dela. A partir disso, Kaguyahime sente desejo de conhecer tal mundo terreno e desce até nós.

O filme opta, então, por enfatizar, de certo modo subversivo em relação ao conto original (visto que desse ponto o conto não trata), a beleza e bondade dos seres terrenos; numa linguagem cristã chamaríamos de bondade das criaturas. O filme mostra não só a bondade dos próprios seres, mas a da vida em geral, a alegria da diversão, da alimentação, de conviver com sua família, com seus amigos, do brilho do Sol, da força do vento, e o movimento dos animais e insetos. O próprio Isao Takahata deixa bem claro esse aspecto do filme em uma entrevista:

 

"As canções cantadas no filme foram feitas para louvar a Terra, esta estrela (sic) onde vivemos, pelo seu maravilhoso ciclo de vida. E meu esforço foi mostrar como a princesa Kaguya desfrutou plenamente da riqueza da vida na Terra, cheia de cores e de todos os tipos de criaturas, bem como da alegria de viver e de formar laços emocionais" (Isao Takahata)


Isso fica ainda mais claro quando é repetitivo (em canto ou em instrumental) o uso do canto Warabe Uta desde o início até o fim do filme. Canto esse que poderíamos chamar de um prelúdio pagão ao já perfeito Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, visto que é um verdadeiro louvor aos seres que preenchem a terra e difundem sua bondade e beleza para nós. O Cântico das Criaturas já é um modo perfeito, pois não dirige ultimamente o louvor à bondade segunda da criação, mas como intermédio e reflexo da Bondade Primeira dirige-o à Deus a partir do qual todos os demais seres são bons:

 

Warabe Uta

"Gira, gira, gira
Roda de água, gira
Gire e chame o senhor sol
Gire e chame o senhor sol

Pássaros, insetos, bestas
Grama, àrvores, flores
Traga a primavera e o verão, outono e inverno
Traga a primavera e o verão, outono e inverno

Gira, gira, gira
Roda de água, gira
Gire e chame o senhor sol
Gire e chame o senhor sol

Pássaros, insetos, bestas
Grama, àrvores, flores
Flor, frutifique e morra
Nasça, cresça e morra

Ainda assim o vento sopra, a chuva cai
A roda de água gira
Vidas vêm e vão no seu tempo
Vidas vêm e vão no seu tempo"

 

Trecho do Cântico das Criaturas

 

Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, 

especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumias.

E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas: 

no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, 

e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual alumias a noite:

e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,

que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,

com flores coloridas, e verduras.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor

e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz,

pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,

à qual nenhum homem vivente pode escapar.

 

Essa alegria ou maravilhamento com os seres terrenos é mostrada durante todo o filme como, por exemplo, Kaguya brincando com o gato, ou se encantando com a beleza e a grandeza da mansão que ela iria morar. É comovente, por exemplo, a cena em que a Princesa Kaguya possui uma  verdadeira efusão de maravilhamento quando pela primeira vez na vida vê a bela queda das folhas de cerejeiras japonesas.

 

 

Mas junto com o maravilhamento com a criação, vem na vida de Kaguya uma série de contrariedades e dificuldades que frustra a alegria da princesa, como é comum na contingência da vida natural. A roda da água gira; a flor, frutifica e morre. A primeira quebra ocorre quando sua família deixa sua vida simples no campo e já aqui encontramos uma das duas dualidades que o filme nos apresentará. A primeira dualidade é a oposição entre a vida do campo e a vida da nobreza urbana. Kaguyahime era feliz na simples vida rural, onde sua única preocupação era a sobrevivência e o desfrutar da riqueza natural, é também o local da sua infância, que é para todos um momento despreocupado, e sem compromissos. Todavia, o tempo passa, e para Kaguya passou muito rápido, mais ou menos três meses a partir do conto original, a vida adulta chega e com ela chegou também para nossa princesa a condição imposta por seu pai de passar a ter uma vida como a da nobreza japonesa. Isso causa um choque na princesa, que, apesar de agora desfrutar de certas alegrias presentes na vida da nobreza (como a leitura do emakimono e o toque do koto), passa a estar distante do meio rural em que cresceu e da natureza. Ela anda, então, a sentir profunda falta de sua vida anterior e tem apenas um pequeno jardim para poder relembrar da antiga casa e amigos. Além disso, deve agora seguir certas regras de etiqueta da nobreza japonesa.

 

E aqui chegamos de modo bastante implícito a outra dualidade presente na obra, a oposição entre a vida terrestre e a vida divina lunar. Kaguya agora deverá seguir os costumes que a nobreza possui ao tentar imitar a vida divina dos seres lunares (retirar as sobrancelhas, pintar os dentes de preto e não rir são alguns exemplos). Uma nobre princesa raramente se levanta, nem poderá suar, rir ou chorar. Dizendo de outra maneira, uma nobre princesa não será humana.

 


Prescindindo do que pensa Takahata nesse ponto, pois não sabemos até o momento, não estamos aqui aderindo a um discurso contra a importância da etiqueta social que, na verdade, se feita de maneira ordenada preenche a vida social com harmonia e beleza. No entanto, as culturas devem ter o cuidado com costumes que desumanizam as pessoas. De qualquer modo, a nobreza do filme tenta, mas não consegue imitar a vida divina lunar. Os seres lunares possuem uma vontade aniquilada com relação ao desejo das coisas (sobre isso comentaremos logo mais), por isso conseguem viver de modo desumanizado. Os homens, não conseguem ou só com muito esforço apenas tentam imitar essa vida. Há, por conseguinte, uma separação abismal entre os homens e os seres divinos, e isso é demonstrado pelas dificuldades que Kaguya passa em sua vida terrestre. Quando a princesa foge do banquete, numa das cenas mais angustiantes e impactantes da animação, vemos um claro enfoque na Lua correspondendo a separação entre as duas vidas e a diferença entre a alegria/sofrimento terreno e a impassividade lunar.

 

 


 

Ao chegar no antigo local de sua infância, a princesa vê que o lugar já não é mais o mesmo, as árvores e plantações não possuem a mesma beleza e frutos, visto que chegou o inverno. Isso significa que não só na vida urbana, mas mesmo na vida rural terrena há contrariedades, momentos melancólicos seguem-se a momentos alegres. A vida terrestre, portanto, não é como a vida lunar. Mas mesmo assim existe em Kaguyahime o desejo de continuar vivendo e continuar experimentando o que há de bom no mundo. Esse desejo não é só dela, quando estava na Lua, quem a levou a querer descer à Terra foi outra cidadã lunar que possuía uma nostalgia de sua pretérita vida terrena. Foi ela quem indiretamente ensinou Kaguya a última parte do canto Warabe Uta onde diz:

 

Vá girando, venha girando, girando
Ó tempo distante
Venha girando, chame meu coração
Venha girando, chame meu coração

Pássaros, insetos, bestas
Grama, árvores, flores
Me ensinem como sentir
Se eu ouvir que você anseia por mim, eu retornarei para você.

 

Vemos assim em O Conto da Princesa Kaguya um dilema que nasce da dualidade do pensamento budista da forma como o filme apresenta: por um lado, há a vida terrena que apesar de seu sofrimento, possui muitas coisas e pessoas boas, de outro, uma vida sem sofrimento, mas de natureza impassível e aparentemente antinatural ante o desejo de bondade que o homem possui. Essa dualidade, a atração que a Terra exerce e a impassividade do mundo lunar é expressa pelo próprio diretor:

 

"Pensei em como vemos a lua como um mundo sempre radiante, porque o sol brilha sobre ela, mas não tem cor e não tem vida, enquanto a terra é cheia de cor e cheia de vida . Eu queria usar esse contraste para mostrar por que a princesa Kaguya gostaria de vir para a Terra, e por que seria tão atraente para ela vir aqui. Mesmo na história original, é explicado que a lua é um lugar onde as pessoas não se preocupam e é um mundo muito puro" (Isao Takahata)

 

Tanto no conto original quanto na adaptação de Katahata, chega o momento em que Kaguya percebe que deve retornar para a Lua, pois os habitantes divinos irão buscá-la numa data específica. No conto original não se diz por que Kaguya veio para a Terra, nem por que deve voltar, dois elementos que Isao Katahata quis desenvolver no longa. No filme, após um encontro indesejado com o imperador japonês, Kaguya por um instante deseja deixar a Terra e pede socorro, desse pedido surge o destino inelutável: Princesa Kaguya deve partir. E em ambas as histórias, a jovem princesa sente uma verdadeira tristeza e melancolia ante a expectativa de ir embora. Passa, então, noites ao luar desejando que os habitantes divinos não a busquem. Quando finalmente chega a comitiva para buscá-la (Buda em pessoa veio), podemos ouvir uma última vez o canto Warabe Uta (mais uma vez ele, nos dando uma das mais belas cenas do filme), e é revelado para nós que a princesa esquecerá tudo o que viveu no plano terrestre. De fato, na Lua não há espaço para o amor dado aos bens específicos como à família ou à natureza terrestre, lá haverá um esquecimento de tudo e de si, consistindo nisso a paz dos habitantes lunares (será essa a paz que os homens desejam?).

 

Quando uma das divindades está preste a entregar o manto à Kaguya que fará com que ela esqueça de sua vida terrena, chama-a para “deixar para trás toda a tristeza e impureza desse mundo” (uma afirmação de sabor gnóstico, perdoem-me o anacronismo), mas a jovem princesa logo retruca: “Isso não é impureza! Tem alegria, tem tristeza. Todos que vivem sentem eles em todas as suas diferentes formas! Tem pássaros, insetos, bestas, gramas, árvores, flores e sentimentos”.

 

 

Vemos então uma defesa apaixonada de Kaguya da bondade intrínseca dos seres terrenos, mesmo possuindo suas contingências e males físicos, poderíamos dizer que ela fez um discurso verdadeiramente anti-gnóstico. Portanto, o filme da Princesa Kaguya de Takahata possui, de certo modo, uma apresentação subversiva do conto original. Se o conto original enfatiza a condição de sofrimento que a vida terrena traz por causa dos desejos e afetos que sentimos, ou seja, certo apego que possuímos pelas coisas terrenas (lembre-se que em outra versão do conto é explícito que ela desceu à Terra como castigo), Katahata, por outro lado, ao trazer o motivo de Kaguya vir a Terra (desejo de conhecê-la, admiração), dá foco à beleza e à bondade inerentes ao mundo especialmente na natureza e na relação com a família e os amigos, sem deixar de seguir a linha do conto original apresentando o sofrimento terreno, fruto dos vícios humanos, e seu destino inelutável. A princesa lunar, por fim, parte forçadamente para a Lua e dá um último olhar triste para a Terra. Esse olhar não é por causa do sofrimento e da tristeza que passou, mas uma lamentação que nasce de um autêntico amor ao que o mundo lhe ofereceu e que tanto admirou.

 

 

O filme, portanto, termina apresentando dois temas, um já presente no conto original, e outra enfatizada de modo original pelo diretor Katahata. O primeiro é a separação abismal entre o mundo divino e humano, e o segundo é a questão: "é melhor uma vida em paz, mas impassível e sem sentimentos ou fruição (negando assim a abertura ao bem própria da natureza racional), ou é melhor fruir a vida terrena apesar de suas tristezas e sofrimentos?". Chegamos, então, ao ponto central desse artigo. Apresentaremos de que modo o tomismo e a Revelação Cristã solucionam esses temas de modo satisfatório. Estamos cientes, é claro, de que se trata de uma visão que só seria possível, em parte, pela Revelação Divina Cristã. Digo “em parte”, pois nem tudo o que direi é de , mas também acessível à razão, apesar da Revelação ter facilitado o conhecimento dessas verdades.

 

Peço licença para antes dar algumas notas de metafísica e ética geral tomista. Todo homem com sua inteligência está aberto ao conhecimento do ser, de modo que tudo o que concebe, todas as ideias, fundam-se nessa noção que é um verdadeiro tecido de nossas concepções. No entanto, o homem não só conhece, mas deseja ou tende ao ser conhecido através da sua vontade. Essa tendência ocorre, pois o homem vê aquilo que há de perfeito no ser e deseja-o como seu bem. O que é o bem? O bem é tudo aquilo que é desejável, visto que possui alguma perfeição. Por exemplo, o homem deseja a nutrição de seu corpo ao buscar um alimento, a nutrição, portanto, é um bem para ele visto que possui a capacidade de com sua perfeição aperfeiçoar o homem que a deseja. Logo, tudo aquilo que é capaz de aperfeiçoar o outro é um bem e essa perfeição é a medida de sua bondade (Cf. S. Th. Ia, q. 5, a. 1). Portanto, faz parte da natureza humana desejar o bem com sua vontade, pois essa faculdade tende ao bem de modo irresistível, como o olho tende à visão. Diríamos que é a faculdade mais elevada humana depois da inteligência, logo, ser contra esse desejo da vontade pelo bem é como amputar uma parte muito importante do homem. Seria algo totalmente antinatural.

 

A inteligência humana, estando aberta ao ser universal, encontra apenas em um Ser Absoluto o descanso de sua vontade, Ser que a inteligência reconhece como seu Bem Último, Deus. Tal Bem Último e Supremo nada mais é que a própria causa da bondade intrínseca de todos as criaturas. Visto que todo efeito é semelhante a sua causa, logo os seres participam da bondade da Causa Primeira ao receberem dela a sua perfeição particular. O homem para conquistar o seu Bem Último deve se dirigir às criaturas e encontrar nelas os meios convenientes para aperfeiçoá-lo e dirigi-lo a seu fim último, seu bem. Portanto, quando ele usa de modo desordenado as criaturas, seja considerando-as seu fim último, ou usando elas como meios para um fim que não seu fim último verdadeiro, ele age de maneira má, mas quando utiliza de maneira ordenada os meios para a conquista de seu fim último verdadeiro, então age de maneira boa.

 

A Princesa Kaguya, claro, é fruto e imagem de como os homens conhecem a si mesmos como criaturas espirituais, possuidores de inteligência e vontade, abertos, portanto, à verdade e ao bem. Em vista disso, podemos também tratar Kaguya como um ser de alma espiritual (ou seja, racional) e estando aberta ao ser em geral com toda a sua riqueza cognoscitiva e apetitiva. E isso explica toda sua alegria e fruição ao conhecer e sentir as riquezas e bondades dos seres terrenos. Sua inteligência via neles bondade, unidade, beleza... E sua vontade não poderia deixar de se alegrar em ter sua presença, pois são bens. Diante disso, não podemos deixar de considerar como anti-natural uma atitude que negue ou mutile a faculdade da vontade que deseja o bem, ao negar qualquer tipo de anseio ou volição. E esse é o modo de vida dos seres lunares: apatia, ausência de anseios. Essa é a “paz” lunar. Mas tal paz não encontra sua conveniência com a natureza racional que tanto os homens, quanto Kaguya, quantos os seres divinos possuem. Em visto disso é que Kaguya anseia a fruição das bondades terrenas e até uma habitante lunar, mesmo estando na apática paz budista, ainda sente falta da Terra. Os seres divinos, ao contrário, vivem em negação com sua natureza racional e de seu desejo pela bondade real e concreta. A sua paz surge da negação do desejo do ser, da pessoalidade, visto que só assim, segundo o budismo, podem fugir do sofrimento e da angústia. Como bem explica Jacques Maritain ao tratar do budismo:

 

“O mal não é só o fato de ter uma existência individual ou pessoal, o mal é existir: ser é mau; e o desejo de ser é a fonte de todas as dores. Portanto, o sábio deve destruir em si a aspiração natural do homem para o ser e para a beatitude ou plenitude do ser, abandonando toda a espernaça e apagando todo o desejo. Chegará desse modo ao estado de vazio ou de indeterminação total chamado nirvna” (MARITAIN, Introdução Geral à Filosofia, 1956, p. 24).

 

É assim uma mutilação da natureza racional, da sua faculdade da vontade. Kaguya, ao contrário, afirmaria: Eu quero o ser, eu quero a bondade. Temos aqui a aproximação de “O Conto da Princesa Kaguya”, ao menos um pouco (antes que digam que estou exagerando), com a filosofia de Tomás de Aquino, visto que essa é a filosofia da afirmação do ser como fonte de perfeição, de existência, de bondade. É o otimismo tomista de que falam muitos autores, mas cito aqui, todavia, um literário chamado G. K. Chesterton:

 

“Entretanto, a única palavra justa que exprime bem essa atmosfera é – otimismo. [...] E, em sentido muito mais lato e mais luminoso que nesses homens, foi o termo basicamente verdadeiro em Santo Tomas de Aquino. Ele creu na vida com a mais solida e colossal conviccão; [...] Respiramo-lo, de certo modo, nas suas primeiras frases a respeito da realidade do ser. Se o intelectual do Renascimento põe assim a questão: "Ser ou não ser, eis a questão", então o pesado doutor medieval responderá certamente, com voz de trovão: Ser, eis a resposta” (CHESTERTON, Santo Tomás de Aquino, 2003, p. 100-101).

 

Como então conciliar o desejo de Kaguyahime pelo ser e pelo bem com o sofrimento e as tristezas que estão tão presentes na vida terrena? Pela filosofia tomista (razão) e pela Revelação Cristã (fé) sabemos que a abertura do homem ao ser não é em vão, mas uma inclinação natural que fará com que conheça a) a existência de um Ser Absoluto que é Causa Primeira, Deus; b) e da imortalidade de sua alma, a vida eterna. Dois elementos que em última instância fundamentam a esperança de após a morte termos o encontro definitivo com o único que pode saciar o anseio de nossa vontade pelo bem. Ainda mais, a Revelação Divina nos mostra que esse encontro não se dará por meio de um conhecimento meramente natural, mas através de uma contemplação sobrenatural da Essência Divina por meio da graça dada por Deus. Essa contemplação de Deus inicia-se antes de tudo e de modo natural na contemplação da criação, da perfeição das criaturas. É nela que encontramos o reflexo da perfeição da Bondade Divina. De fato, a Escrituras nos diz que: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn, 1, 31). E é através da perfeição (bondade) que as criaturas nos transmitem e refletem que conhecemos o Criador: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar” (Rm 1, 20). É tão clara a presença do Criador na criação que a Escritura chama de estulto aqueles que negam sua existência: “Diz o insensato em seu coração: “Não há Deus” (Sl, 52, 2).

 

Encontramos assim o fator que faltava na equação, fator esse que constitui propriamente a Esperança, aquilo que dá sentido ao desejo de Kaguya pelo bem terreno, evitando assim o desespero que leva em última instância à negação do ser e a busca pela apatia como uma válvula de escape existencial através da negação do desejo de existência. Caminhando nesse sentido, Chesterton mostra como a esperança em Cristo e a busca pelo Criador através da criação é o oposto do ideal de Buda (o nosso quase-vilão do filme, querendo Takahata ou não):

 

“Realmente, quanto mais apreciamos o desgosto de Buda pelo mundo e pela sua renúncia, mais vemos que, do ângulo intelectual, aquele ideal era quase antípoda da salvação do mundo por Cristo. O cristão queria evadir-se do mundo para o universo; o budista quer evadir-se do universo, ainda mais do que do mundo. O budista quereria aniquilar-se; o cristão quer voltar à sua criação: ao seu Criador. É o ideal budista tão perfeitamente o inverso da idéia da cruz como árvore de vida, que há certa desculpa em pôr as duas coisas lado a lado, como se tivessem a mesma significação. De certo modo são paralelas e equivalentes, como o monte de terra e a cova, o vale o monte” (CHESTERTON, Santo Tomás de Aquino, 2003, p. 102).

 

Há o elemento do desespero também quando, ao lermos o conto original, vemos que Kaguyahime dá um elixir da vida eterna aos seus pais que se recusam a tomar, pois não suportariam viver eternamente sentindo falta de sua amada filha adotiva, em vista disso, dão o elixir ao imperador que também se recusa a tomar pelo mesmo motivo e joga o elixir no Monte Fuji que até hoje estaria fervilhando, o que explicaria a fumaça que até os dias de hoje sai do monte. Esse desespero é sintomático da separação entre a vida terrana e lunar, a imortalidade para eles seria um peso. Essa separação inconciliável que há em “O Conto da Princesa Kaguya” entre a natureza e o divino, entre a vida natural e a vida lunar, é radicalmente solucionada pela união entre a natureza humana e a natureza divina na Pessoa de Cristo na Encarnação (algo totalmente gratuito da parte de Deus), a maior união que existe depois da união entre as Pessoas da Trindade. O fato histórico da Encarnação é a união entre o temporal e o eterno, entre o natural e o sobrenatural, entre o humano e o divino. Além disso, o homem é gratuitamente chamado a participar da vida divina e ser incorporado em Cristo pela graça do batismo. Através da Revelação Cristã que nos promete a beatitude sobrenatural e de Cristo que nos abre o caminho pelo seu sacrifício redentor, todos os nossos sofrimentos agora são unidos a Ele, agora o homem sofre com Cristo e pode ter a esperança de um dia receber o prêmio de sua paciência: A contemplação do Sumo Bem, que antes só via através do seu reflexo na criação e cria de modo sobrenatural pela fé. Cristo, por conseguinte, é a resposta para todas as questões dos antigos povos. É a chave de leitura da história, visto que é o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega. Nosso Senhor não é mais um na roda do Samsara ou um indivíduo iluminado que a superou, mas é o próprio Senhor da História.

 

 

O homem, em vista disso, desejará sair desse mundo, mas não através da negação da bondade intrínseca das criaturas ou da mutilação de sua natureza humana e abertura à bondade, mas por meio do positivo desejo do bem, que não será saciado a não ser no conhecimento e no amor do Sumo Bem, Deus. Encontramos assim no filme “O Conto da Princesa Kaguya” uma interessante reflexão através de um belíssimo filme, mas uma reflexão que precisa ser superada e resolvida n’Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida.

 

 

 

Obs:. Apesar desse artigo surgir de uma reflexão e pesquisa pessoal que se iniciou desde o momento que terminei o filme, é preciso reconhecer que o insight especificamente acerca da Encarnação de Cristo como a conciliação entre a separação do mundo divino e humano foi retirado do artigo "The Gospel of Princess Kaguya" do blog cristão Sanctum in Heremis (que parece ser ortodoxo oriental, mas eu não pude confirmar se realmente é) e tomou aqui suas formas e desenvolvimento de modo original. Aviso que, talvez por influência oriental, o artigo possui ao menos dois termos que julguei impróprios ou errôneos como afirmar que as "formas da eternidade inere em todas as coisas", por exemplo. Então fica o aviso.

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