[ARTIGO] As vias de Tomás de Aquino e a falácia da inversão dos quantificadores.

 

AS VIAS DE TOMÁS DE AQUINO E A FALÁCIA DA INVERSÃO DOS QUANTIFICADORES

 

Iago Nicolas de Abreu Soares

 

 


 

Alguns autores acusaram Tomás de Aquino de cometer a falácia dos quantificadores na exposição, ao menos, das suas três primeiras vias para o conhecimento da existência de Deus. A falácia consiste em uma inapropriada inversão entre os quantificadores universal e existencial, que ocorre da premissa para a conclusão. Estando assim o quantificador existencial na conclusão em maior escopo que na premissa. Por exemplo:

 

Todos amam alguém. (xyRxy)

Portanto, há alguém que todos amam. (∴∃yxRxy)

 

Assim formulam a dedução de Tomás (Por brevidade, consideraremos apenas a primeira e a terceira via, pela semelhança argumentativa que a segunda possui com a primeira):

 

a)      Tudo que se move é movido por algo.

Portanto, há um algo que move a tudo.

 

b)      Todo contingente em algum momento não existiu.

Portanto, há um momento em que nenhum contingente existia.

 

Nossa tese é de que Tomás de Aquino não cai em tal falácia, pois a formalização dos acusadores não corresponde ao argumento utilizado por Tomás de Aquino. Pra ficar claro é preciso compreender que, no caso da primeira via a), Tomás:

 

1.    Não considera uma ordem de causalidade acidental, mas essencial: Quia moventia secunda non movent nisi per hoc quod sunt mota a primo movente, sicut baculus non movet nisi per hoc quod est motus a manu (S. Th., Ia, q. 2, a. 3) [Pois os motores segundos só se movem pela moção do primeiro motor, como o bastão, que só se move movido pela mão][1]. Isso quer dizer que em dada ordem um elemento depende imediatamente do outro, diferente de uma ordem acidental (o filho gerado pelo pai não depende que o pai continuamente gere-o para que ele exista).

 

2.     Ela não parte da totalidade dos seres, mas a partir da evidência de um dado em particular, e a série considerada corresponde com aquele dado em particular: “Certum est enim, et sensu constat, aliqua moveri in hoc mundo. Omne autem quod movetur, ab alio movetur” (S. Th., Ia, q. 2, a. 3) [Nossos sentidos atestam, com toda a certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Ora, tudo o que se move é movido por outro].

 

3.     A conclusão é de que há um Primeiro Motor para a dada ordem considerada, e não que esse Primeiro Motor é o mesmo de toda e qualquer ordem considerada: “Si ergo id a quo movetur, moveatur, oportet et ipsum ab alio moveri et illud ab alio. Hic autem non est procedere in infinitum, quia sic non esset aliquod primum movens; [...] Ergo necesse est devenire ad aliquod primum movens, quod a nullo movetur” (S. Th., Ia, q. 2, a. 3) [Assim, se o que move é também movido, o é necessariamente por outro, e este por outro ainda. Ora, não se pode continuar até o infinito, pois neste caso não haveria um primeiro motor; [...] É então necessário chegar a um primeiro motor, não movido por nenhum outro].

     Portanto, não é o caso do argumento depender que o Primeiro Motor mova a tudo, no sentido de toda e qualquer série, mas que ele move essa série particularmente considerada.

 

4.    A identificação de que o Primeiro Motor é Deus é devido sua primazia no movimento de dada série e por antecipação das perfeições que se deduzem a partir dessa primazia. Tomás em nenhum momento diz que esse Deus é o mesmo de toda e qualquer série (não a partir da via), nem que ele é único: “et hoc omnes intelligunt Deum” (S. Th., Ia, q. 2, a. 3) [E este, todos entendem: é Deus].

     O fato de que dado Primeiro Motor é um Deus Único e que é o Primeiro Motor de toda e qualquer ordem considerada é inferido de outros argumentos a partir da conclusão de que ele é um primeiro motor de uma ordem particular dada. Mais especificamente essa conclusão se infere a partir da conclusão de sua simplicidade (S. Th., Ia, q. 3, a. 7), que nos leva a sua unicidade (S. Th., Ia, q. 11, a. 3).

 

Quanto à terceira via b), respondemos que:

 

1.    Esse é o dito literalmente pelo autor: “Impossibile est autem omnia quae sunt, talia esse, quia quod possibile est non esse, quandoque non est. Si igitur omnia sunt possibilia non esse, aliquando nihil fuit in rebus” (S. Th., Ia, q. 2, a. 3) [Mas é impossível ser para sempre o que é de tal natureza, pois o que pode não ser não é em algum momento. Se tudo pode não ser, houve um momento em que nada havia].

 

2.    O contingente e necessário no argumento não é utilizado em termos lógicos, mas físicos: “Invenimus enim in rebus quaedam quae sunt possibilia esse et non esse, cum quaedam inveniantur generari et corrumpi”(S. Th., Ia, q. 2, a. 3). [Encontramos, entre as coisas, as que podem ser ou não ser, uma vez que algumas se encontram que nascem e perecem]. A tradução está imprecisa, não encontramos alguns contingentes que são gerados e corrompidos, mas alguns entes que possuem isso. A geração e corrupção estão em todos os contingentes. Aqui notamos, então, que não existir, passar a existir e em algum momento deixar de ser corresponde a própria definição de ser contingente, e não uma premissa ou uma conclusão deduzida.


3.   Que em algum momento nada existiria se tudo fosse contingente não é uma conclusão inferida do fato de que individualmente cada corpo em algum momento não existiu. Mas da dependência metafísica que um contingente, na física aristotélico-tomista, possui imediatamente com outro. Se todos fossem contingentes essa dependência imediata não possuiria um primeiro sob o qual se depender (ser necessário), ruindo assim a razão de ser de todos os contingentes. Isso fica claro logo após a afirmação de que “aliquando nihil fuit in rebus”: Sed si hoc est verum, etiam nunc nihil esset, quia quod non est, non incipit esse nisi per aliquid quod est; si igitur nihil fuit ens, impossibile fuit quod aliquid inciperet esse, et sic modo nihil esset, quod patet esse falsum (S. Th. Ia, q. 2, a. 3).[Ora, se isso é verdadeiro, ainda agora nada existiria; pois o que não é só passa a ser por intermédio de algo que já é. Por conseguinte, se não houve ente algum, foi impossível que algo começasse a existir; logo, hoje, nada existiria: o que é falso].

 

Acreditamos assim demonstrar de que a acusação não corresponde à verdade.


[1] Utilizamos a tradução da Loyola para o texto, mas recomendamos que se atenham ao latim por precisão.

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