[ARTIGO] PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS QUE FUNDAMENTAM A PEDAGOGIA DE HUGO DE SÃO VÍTOR NA OBRA DIDASCALICON

 

PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS QUE FUNDAMENTAM A PEDAGOGIA DE HUGO DE SÃO VÍTOR NA OBRA DIDASCALICON

 

Por: Iago Nicolas de Abreu Soares[1]

Artigo originalmente publicado na Revista Occursus: http://seer.uece.br/?journal=Occursos&page=article&op=view&path%5B%5D=4244

 

Resumo: O objetivo deste artigo é expor os princípios que fundamentam a pedagogia de Hugo de S. Vítor, monge medieval do século XII, sem a pretensão de exaustividade quanto ao número dos fundamentos. A obra utilizada será o Didascalicon, de onde sacaremos três princípios: a compreensão do homem como ser racional e desejoso de sabedoria; a filosofia como conhecimento dos princípios do mundo e fundamento das demais disciplinas; por fim, a humildade como princípio de toda educação.

 

 

Palavras-chave: Educação. Fundamentos. Medieval.

 

 

PHILOSOPHICAL PRINCIPLES THAT FUNDAMENT THE PEDAGOGY OF HUGH OF SAINT VICTOR IN THE BOOK DIDASCALICON

 

Abstract: The objective of this article is to expose the principles that fundament the pedagogy of Hugh of Saint-Victor, a medieval monk from the 12th century, without the pretension of exaustivity as to the number of the fundaments. The work used will be the Didascalicon, from wich we will withdraw three fundaments: the comprehension of man as a rational being and desirous of wisdom; the philosophy as the knowledge of the world's principles and as the fundament of the other disciplines; lastly, the humility as the principle of all education.

 

 

Keywords:  Education. Fundaments. Medieval.

 

 

Introdução

 

Muito se escreveu quanto ao ensino e sua metodologia. Como se deve ensinar, com qual material, de que maneira, para qual finalidade, e quais os resultados esperados. Tendo isso em vista será desenvolvido aqui o seguinte tema: apresentar princípios que fundamentam uma metodologia do ensino. Este artigo se baseará em um livro da primeira metade do século XII chamado Didascalicon, de Hugo de S. Vítor; no entanto, será omitido as aplicações mais próximas e imediatas destes princípios no ensino. Os fundamentos tratados, além disso, serão do âmbito filosófico e expostos sem a pretensão de esgotar todos os princípios da metodologia de educação do autor do Didascalicon: Hugo de S. Vítor.

Hugo de S. Vítor foi um monge medieval nascido na Saxônia e que viveu no Mosteiro de São Vítor, onde foi professor da escola anexa, na qual se tornou futuramente diretor e, por fim, prior do mosteiro. Dentro de seu período no mosteiro escreveu o livro Didascalicon[2], no qual encontramos não só a divisão das matérias que deveriam ser ensinadas em sua escola, mas também o método pelo qual o aluno deve aprender e estudar; e os princípios basilares de toda e qualquer educação: “Hugo escreveu o Didascalicon, a fim de oferecer a seus alunos e a outros interessados um guia que os orientasse na escolha das leituras, na ordem e na maneira como deveriam ser lidos” (NUNES, 2020, p. 268). O livro divide-se “em duas partes: a primeira em três livros trata dos escritos profanos, e a outra, em quatro livros, dos divinos, dando várias informações ao leitor sobre as artes liberais e sobre a Sagrada Escritura” (NUNES, 2020, p. 268).

Os princípios ou fundamentos, no qual se finca o Didascalicon, podem ser desconhecidos, ignorados ou até desprezados atualmente, mas o leitor atento e reflexivo poderá encontrar neles uma alternativa para pensar a educação como meio importante para o homem atingir a realização de sua natureza, natureza esta que é inteligente, e por ser inteligente, é racional, ou seja, tende e busca a verdade como o fim de seu desejo de conhecimento.

Encontram-se no Didascalicon de Hugo de S. Vítor verdadeiros fundamentos para o estudo e ensino; para provar isso, será exposto (serão expostos) cada um deles, destrinchando no que se baseiam e quais são as consequências sejam teóricas, sejam na prática do ensino.

Este artigo será de proveito para todos os que interessam-se pela filosofia, quanto para os que interessam-se pelo tema da educação e seus fundamentos.

 

1 A filosofia como busca da sabedoria

 

Pode-se dizer que a primeira parte do livro Didascalicon é um louvor à sabedoria[3] e à capacidade do homem de buscá-la através de seu intelecto. Assim diz Hugo de S. Vítor: “De todas as coisas que devem ser almejadas, a primeira é a Sabedoria, na qual consiste a forma do bem perfeito” (Did. I, I). Portanto, a sabedoria encontra no pensamento de Hugo de S. Vítor a modalidade de causa final, ou seja, aquilo ao qual ordenamos os meios em vista de o possuir; isto é, possuir um bem para a natureza humana. Pode parecer para o leitor contemporâneo um discurso moral, não se engana; porque, de fato, para Hugo de S. Vítor a sabedoria e sua busca não é só uma tarefa meramente especulativa, mas também moral, e que compromete eticamente o homem, como fica evidenciado neste seu adágio: “Não saber é uma incapacidade, mas detestar o conhecimento é certamente uma perversão da vontade” (Did., Prefácio). De fato, Aristóteles ensinou que: “Todos os homens, por natureza, tendem ao saber” (ARISTÓTELES. Metafísica, 980a 21). Essa tendência para o saber é fruto da natureza humana que é racional, por isso encontra na sabedoria, na verdade, seu bem.

Com a intenção de mostrar como para Hugo de S. Vítor a natureza humana é racional, este artigo irá analisar o capítulo III do livro I do Disdascalion onde ele irá tratar da tríplice potência da alma expondo a função de cada potência: “Com efeito, uma das três basicamente fornece a vida ao corpo, para que, nascendo, cresça, e, nutrindo-se, sobreviva; outra oferece o discernimento pelos sentidos; a terceira está calcada na potência da mente e da razão” (Did. I, III). Esta terceira função, que é a racional, está presente apenas no gênero humano, por isso, é a especificidade do homem e aquilo que constitui sua distinção de todos os outros animais:

 

Mas a terceira potência da alma, que traz consigo as duas anteriores, a do crescimento corporal e a dos sentidos, servindo-se delas como escravos obedientes, está inteiramente constituída na razão e realiza-se ou na dedução sólida das coisas presentes, ou na intelecção das ausentes, ou na procura das desconhecidas. Ela somente está à disposição do gênero humano, e não só capta as sensações e imagens perfeitas e ordenadas, mas também, por um ato pleno da inteligência, explica e confirma o que a imaginação lhe apresentou. (Did. I, III)

 

Sendo a racionalidade a especificidade humana diante do gênero animal, encontra-se nela aquela atividade que irá guiar o processo de amadurecimento e desenvolvimento humano. Ora, se em seu desenvolvimento ele se prende apenas às potências que são coparticipadas entre ele e os diversos animais, o homem não encontrará nesse processo aquilo que irá satisfazer sua natureza, ou seja, aquilo que ele busca como seu bem.  A sabedoria, segundo Hugo de S. Vítor, mostrará ao homem essa sua condição especial na natureza:

 

A Sabedoria ilumina o homem para que ele conheça a si mesmo, ele que, quando não compreende sua verdadeira natureza, se rebaixa ao mesmo nível das outras criaturas, não percebendo sua superioridade em relação a elas. (Did. I, I)

 

A busca, portanto, pela sabedoria é uma atividade não só especulativa, mas moral também, visto que o homem deve compreender sua própria natureza e suas exigências, para não rebaixar-se ao mesmo nível das outras criaturas. A potência racional humana, como nos ensina Hugo, empreende dois exercícios:

 

Há duas coisas nas quais as potências da alma racional empreende todo seu exercício: uma delas é conhecer a natureza das coisas pela investigação racional, e a outra é primeiramente conhecer o que depois será requisitado para que se exerça o discernimento moral. (Did. I, III)

 

Pode-se, então, sacar, a partir do exposto, o primeiro princípio que deve guiar o mestre ou professor diante de seus alunos, segundo o monge saxão: incutir neles o conhecimento cada vez mais claro de sua condição de seres racionais, e, devido a isso, destinados a buscar a verdade como bem do seu intelecto que é a potência mais elevada que o homem possui. Para isso, a sabedoria deve ser colocada como o fim do percurso: visto que é através de um autêntico desejo do fim almejado (no caso, a sabedoria) que pode-se ordenar os meios para alcançar aquilo que é almejado. O professor, então, deve cultivar nos alunos um desejo de conhecer a verdade do ser, das ideias, das coisas, de sua própria natureza, etc., pois a verdade é o fim da potência intelectiva.

Ademais, a sabedoria deve ser colocada pelo professor como guia, pois é ela que deve iluminar os alunos na sua caminhada de autoconhecimento como entes inteligentes e desejosos da verdade, distinguindo e colocando em destaque suas posições de nobreza ante os animais brutos e os demais seres irracionais. A sabedoria não só é o fim, mas também o guia, pois mostra para aqueles que a buscam aquilo que são as verdadeiras exigências da natureza humana, qual seu real bem que se distingue da natureza dos animais brutos. Se não fosse esse guia, o homem, possuindo o dom de aprender, passará a tomar para si uma vida, segundo Hugo de S. Vítor, indigna: “é certamente mais infame ser dotado de engenho e deleitar-se nas riquezas e entorpecer-se no ócio” (Did., Prefácio).

Para Hugo de S. Vítor, a filosofia, que também para ele é o fundamento das demais disciplinas, é a busca pela sabedoria:

 

Pitágoras, o primeiro de todos, denominou a busca da sabedoria de “filosofia”, e preferiu ser chamado “filósofo”, enquanto antes os de mesma prática eram chamados sophos, isto é, sábios. Com efeito, chama, com precisão, os que procuram a verdade não de “sábios”, mas de “amantes da sabedoria”, porque, de fato, até o momento a verdade total está oculta, por mais que a mente se consuma no amor dela e progrida aquele que a procura; e porque a mente, por si mesma, dificilmente será capaz de compreendê-la. (Did. I, II)

 

Uma noção semelhante de filosofia como busca da sabedoria foi dada por Platão:

 

No Banquete Platão situa a filosofia a meio caminho entre a sabedoria e a ignorância. Os deuses não filosofam porque são sábios. Quem possui a sabedoria não precisa procura-la. Os ignorantes também não filosofam, pois, sendo auto-suficientes, julgam que nada lhes falta e, por isso, não almejam a sabedoria. O Amor, proclama Diótima, é o desejo das coisas belas. Por isso, o amor é filósofo e ocupa o posto intermediário entre o sábio e o ignorante. Tal noção de filosofia equivale à acepção tradicional, etimológica, de busca de conhecimento, desejo da sabedoria. Mesmo que um homem seja tido como sábio, convém trata-lo de filósofo, pois só os deuses merecem com justiça o epíteto de sábios. Foi isso que Pitágoras ensinou e é isso que Platão repete num lanço de Fedro. (NUNES, 2020 p. 39)

 

Seguindo os princípios de Hugo de S. Vítor, teremos melhores alunos quanto mais incutirmos neles a sede de sabedoria, ou seja, sede de verdade, para aquilo que o intelecto humano não cessa de buscar. Ademais, essa busca será auxiliada pelo estudo da filosofia, que é o fundamento das demais disciplinas humanas, como adiante se verá. Pode-se, então, encontrar na busca da sabedoria, a consolação de que falava Boécio em sua obra “De Philosophiae Consolatione”. Hugo não hesita em dizer, citando Boécio: “Portanto, ‘a máxima consolação da vida’ é a busca da Sabedoria, a qual quem encontra é feliz, e quem possui é bem-aventurado” (Did. I, I). Encontramos eco desse pensamento na filosofia de Tomás de Aquino onde diz na Suma Contra os Gentios que o estudo da sabedoria é o: “mais alegre, porque a sua companhia não causa dissabores, nem desgosto a convivência, mas contentamento e alegria” (SCG I, II).

 

2 A filosofia como conhecimento dos princípios do mundo e fundamento das demais disciplinas:

 

Diz o monge Hugo, fazendo referência a Pitágoras e citando Boécio: “E assim estabeleceu a Filosofia como a disciplina ‘das coisas que são verdadeiras e que possuem uma substância imutável’” (Dic. I, II). Esse é o segundo fundamento que o saxão Hugo pode dar aos seus leitores: A filosofia conhece os princípios e as causas do mundo, fundamentando, portanto, as demais disciplinas:

 

Na verdade, a própria enteléquia[4] capta tanto os princípios primeiros quanto os que deles decorrem, porque assim como compreende pela inteligência as causas invisíveis das coisas, também retém pelas impressões dos sentidos as formas do que lhe está presente corporalmente, e, dividida, concentra o movimento em dois planos, porque ou pelo sentido alcança o sensível ou pela inteligência ascende às coisas invisíveis. (Did. I, I)

 

A alma humana faz com que o homem conheça a forma das coisas podendo representar em sua mente a semelhança delas, pois possui em si suas aparências: “Ela (a alma humana) volta a si mesma trazendo as semelhanças das coisas; e é assim que a mente, por ser constituída de toda substância e natureza, é capaz de representar para si mesma tudo o que há no universo através da semelhança entre ela e o objeto (Did. I, I)”[5].

A filosofia é a disciplina pelo qual o ser humano conhece a semelhança das coisas, por isso, com ela traz a forma do mundo para a inteligência humana. A partir disso, pode-se buscar conhecimentos novos ou fazer juízos práticos quanto à realidade em que se vive:

 

Portanto, posto que a atividade do espírito humano consiste na contínua compreensão das coisas presentes, ou na intelecção das ausentes, ou na investigação e descoberta do que ainda não se sabia, há duas coisas nas quais a potência da alma racional empreende todo seu exercício: uma delas é o conhecer a natureza das coisas pela investigação racional, e a outra é primeiramente conhecer o que depois será requisitado para que se exerça o discernimento moral. (Did. I, III)

 

A filosofia, porquanto, deve ser tratada como a disciplina que trata do fundamento de todas as coisas, e, inclusive, dos atos humanos. Não é uma disciplina à parte das ciências, sejam elas matemáticas, biológicas ou físicas, mas compreende universalmente, não particularmente, todas as coisas. Também não é uma disciplina que possui conclusões apenas teóricas, mas compromete, reflete e assume consequências práticas para a vida do homem:

 

Com efeito, porque empreendemos falar sobre a busca da Sabedoria e atestamos que ela, por um privilégio da natureza, compete somente aos homens, consequentemente agora nos vemos obrigados a estabelecer a Sabedoria como o ponto de referência de todos os atos humanos. (Did. I, IV)

 

A razão é bastante simples: distintamente dos animais brutos que agem impelidos pela paixão e extinto, o homem, sendo dotado de razão, não deve ter sua alma “arrebatada pelo apetite cego, mas proceder sempre pela Sabedoria moderadora” (Did. I, IV). Conclui, então, Hugo de S. Vítor:

 

Logo, se isso for verdade, dizemos que pertencem adequadamente à filosofia já não só aqueles estudos que buscam ou a natureza das coisas ou a disciplina dos atos morais, mas também a razão de todos os atos ou inclinações humanas. Segundo esta acepção, podemos definir a filosofia como a disciplina que investiga integralmente a razão de todas as coisas humanas e divinas. (Did. I, IV)

 

Tornando a disciplina filosófica para o aluno não mero acessório à sua grade curricular, mas a guia e mãe de toda e qualquer disciplina, fundamentando seus estudos e sua prática:

 

“... o trabalho dos artífices, mesmo já não sendo natureza, imita-a, e reproduz pela razão a forma de seu exemplar, que é natureza. Vês que imediatamente somos obrigados a admitir que pela razão a filosofia está difundida em toda ação humana, de modo que é necessário haver na filosofia tantas partes quantas sejam as diferentes coisas das quais lhe convém se ocupar”. (Dic. I, IV)

 

Os trabalhos dos artífices e das outras ciências particulares só são possíveis de serem realizados devido à filosofia, que capta a forma natural e concebe uma imitação artificial da natureza. A filosofia, diz Hugo de São Vítor (citando Cassiodoro), é “‘a arte das artes, e a disciplina das disciplinas’, isto é, aquela à qual se ordenam todas as artes e disciplinas” (Did. II, I). Diz ainda, citando a obra Etymologiae de Isidoro de Sevilha: “‘A filosofia é a disciplina que investiga com profundidade a razão de todas as coisas divinas e humanas’. Assim, a razão de todos os esforços humanos correspondem à filosofia” (Did. II, I). Deste princípio pedagógico de Hugo, podemos retirar uma fundamentada defesa da filosofia e sua importância para todo o pensar humano. Além de seu papel na educação e formação dos estudantes.

 

3 A humildade como um fundamento para o aprendizado da filosofia

 

No capítulo VI do terceiro livro do Didascalicon, o saxão Hugo tratará daquilo que é necessário ao estudo, podemos dizer, do que é necessário para o aluno aprender, elencando três coisas:

 

Três coisas são necessárias aos estudantes: a capacidade natural, o exercício e a disciplina. Na capacidade natural considera-se quão facilmente o estudante apreende o que foi ouvido e quão solidamente retém o apreendido. No exercício considera-se como o estudante cultiva a capacidade natural pelo esforço e pela assiduidade. Na disciplina considera-se como o estudante, vivendo de modo louvável, conforma sua conduta à ciência adquirida (Did III, VI)

 

Das três coisas que são necessárias para o estudo, este artigo focará em um fundamento importantíssimo para a pedagogia de Hugo de S. Vítor, ou para uma metodologia do ensino. Hugo de S. Vítor nos dirá que:

 

Quando certo sábio fora interrogado sobre o modo e a forma de aprender, ele respondeu: “uma mente humilde, força de vontade, uma vida recolhida, uma busca silenciosa, a pobreza, uma terra estrangeira, tudo isto costuma ajudar no entendimento de muitas coisas obscuras encontradas na leitura” (Did. III, XII).

 

Com relação à disciplina, Hugo de S. Vítor considera que o princípio dela deve ser a humildade que nos dá inúmeros ensinamentos. Há três ensinamentos que dizem respeito principalmente ao estudante, para que possa progredir no conhecimento: “primeiro, que ele não tenha por desprezível nenhuma ciência ou escritura; segundo, que não se envergonhe de aprender de ninguém; terceiro, que, tendo alcançado a ciência, não despreze aos demais” (Did. III, XIII).

A humildade é necessária para o aprendizado, porque só aquele que reconhece não saber estará disposto a adquirir e compreender novos conhecimentos e a não opinar aquilo que não sabe:

 

Estes preceitos desiludem a muitos que querem parecer sábios antes do tempo. Certamente por isso caem numa afetação de altivez, e logo começam tanto a simular que são o que não são quanto a envergonhar-se do que são, e ainda se distanciam para mais longe da sabedoria ao não estimarem serem sábios, mas em serem considerados como tais. (Did. III, XIII)

 

Além disso, aquele que não se envergonha de aprender de ninguém, irá acolher com mais facilidade, de quem ensina, aquilo que ele julga como verdadeiro, e quem seguir este princípio encontrará a oportunidade de aprender de todos com quem possa ouvir algo de verdadeiro: “O que não sabes aprende de boa vontade de qualquer um, porque a humildade pode tornar comum a ti aquilo que a natureza deu de especial a cada coisa. Serás mais sábio do que todos se quiseres aprender de todos. Os que recebem de todos são mais ricos do que todos” (Did. III, XIII). Ademais, esse princípio melhora a relação entre o aluno e professor, fazendo com que o mestre se abra à oportunidade de aprender aquilo que é da realidade própria do aluno e de seus saberes. Mesmo aquele que sabe muito não pode descuidar na humildade, pois não “existe ninguém a quem foi dado tudo saber, nem tampouco ninguém a quem não aconteceu de receber algo de especial da natureza” (Did. III, XIII). Aquele que reconhece humildemente que precisa aprender, buscará o aprendizado nos mais cultos e nos mais simples, não descuidando, então, de aprender tanto dos grandes autores, quanto do conhecimento popular que carrega consigo algumas doses de sabedoria: “O que não sabes aprende de boa vontade de qualquer um, porque a humildade pode tornar comum a ti aquilo que a natureza deu de especial a cada coisa”. Assim aprenderá e saberá mais quem não despreza os conselhos de Hugo, pois não há educação sem humildade:

 

Enfim não tenhas nenhuma ciência por desprezível, pois toda ciência é boa. Ao menos não deixes de ler, se tiveres tempo, nenhuma escritura. Se nada lucrares, nada perderás, sobretudo quando se tem em conta que não existe nenhum escrito que, conforme estimo, não proponha algo de desejável se lido no lugar e no momento adequados; ou nenhum escrito que não tenha também algo de especial, do qual o leitor diligente e perscrutador das palavras, não o encontrando em outro lugar, consegue apossar-se com tanta graça quanto mais raro o achado. (Did. III, XIII)

 

Ademais, a humildade evita que aquele que estuda, busque um conhecimento mais difícil do que pode adquirir, passando então a buscar do mais simples ao mais complexo de maneira ordenada: “Avança bem quem avança gradativamente. E há ainda alguns que, querendo dar um grande salto, acabam por cair no precipício. Não queirais, pois, apressar-se demais; e deste modo chegarás mais rapidamente à Sabedoria” (Did. III, XIII). Encontra-se ensinamento semelhante na carta de Tomás de Aquino para um jovem, citada por A. D. Sertillanges (2010, p. 37):

 

“Dois dos dezesseis conselhos de Santo Tomás em matéria de estudo são a eles dirigidos: “Altiora te ne quaesieris – não procures acima de teu alcance”. “Volo ut per rivulos, non statim, in mare eligas introire – quero que decidas entrar no mar pelos regatos, não diretamente”. Conselhos precioso, proveitosos para a ciência tanto quanto para a virtude por equilibrarem o homem”.

 

A humildade, portanto, para Hugo de S. Vítor, não pode ser excluída do ensino, cabendo ao professor cultivar sempre essa virtude entre os alunos, para que não falte neles o desejo de conhecer. E aos alunos cabe o reconhecimento da presença do professor como oportunidade de crescer em conhecimento e sabedoria. Ademais, aquele que já sabe algo não poderá desprezar os outros, visto que “não existe ninguém a quem foi dado tudo saber, nem tampouco ninguém a quem não aconteceu de receber algo de especial da natureza” (Did. III, III).

Encerra, Hugo de S. Victor, dizendo:

 

O bom leitor deve então ser humilde e manso, totalmente alheio às preocupações vãs e aos encantos dos prazeres, diligente e assíduo; para que aprenda de todos de boa vontade, para que nunca presuma de sua ciência, para que fuja dos autores de doutrinas perversas como se foge do veneno, para que aprenda a meditar durante muito tempo sobre uma coisa antes de julgá-la, para que não busque parecer sábio, mas sê-lo, para que honre os conhecimentos adquiridos dos sábios, e para que procure tê-los sempre diante dos olhos como um espelho de seu próprio rosto. E se por acaso seu intelecto compreender as coisas mais obscuras, não prorrompa imediatamente em vitupérios, para que não acredite que é bom unicamente o que ele pode entender por si mesmo. Esta é a humildade própria da disciplina dos estudantes (Did. III, XIII).

 

Tal é o terceiro princípio filosófico que fundamenta a pedagogia de Hugo de S. Vítor exposto neste artigo. De fato, todo aprendizado exige certa disciplina, para isso, é necessária uma vida ordenada segundo o fim almejado. Para o monge Hugo, a humilde é imprescindível para esse ordenamento.

 

Conclusão

 

A partir de uma obra do século XII, pode-se extrair três fundamentos importantes para a educação ou o estudo da disciplina de filosofia e de outras matérias, não só para as pessoas daquela época, mas também para as pessoas dos dias de hoje, pois se fundamentam na natureza humana e não naquilo que é de varável no homem, pois essa variabilidade, que não pode ser ignorada, deve se fincar naquilo que há de universal e basilar no homem, visto que em toda mudança há um permanente sujeito que é alterado.

Os fundamentos, que não foram de modo algum citados com a pretensão de serem exaustivos, são: o conhecimento do homem como um ser racional e desejoso de conhecimento e sabedoria; a compreensão da filosofia como um conhecimento dos princípios do mundo e fundamento das demais disciplinas; e a humildade como princípio de toda e qualquer educação.

O artigo pretende, com esses fundamentos, apresentar o guia de Hugo de S. Vítor, a partir do qual todos poderão seguir, mesmo acrescentando por cima métodos e práticas que estão conformadas com aquilo que é contingente e variável em cada sociedade.

 

Referências bibliográficas:

 

AQUINO, Tomás de. Suma Contra os Gentios, livro 1. Tradução de Joaquim F. Pereira e Eliane da Costa Nunes. São Paulo: Edições Loyola, 2015.

ABBAGNANO, Nicolas. Dicionário de Filosofia. Tradução: Alfredo Bosi, Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ARISTÓTELES. Metafísica de Aristóteles: Texto grego com tradução ao lado. Tradução do texto grego de Giovanni Reale. Tradução portuguesa de Marcelo Perine. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

BOÉCIO. A consolação da filosofia. Tradução de Willian Li. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

NUNES, Ruy Afonso da Costa. Gênese, significado e ensino da filosofia no século XII. 2. ed. Campinas: Kírion, 2020.

SERTILLANGES, A. -D. A vida intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos. Tradução de Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2010.

VÍTOR, Hugo de São. Didascalicon: sobre a arte de ler. Tradução de Roger Campanhari. Campinas: Kírion, 2018.



[1] Graduando em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. Bolsista custeio de Monitoria em Lógica I. E-mail: iagonicolas@aluno.uece.br.

[2] Cf. NUNES, 2020, p. 268.

[3] A sabedoria, para Hugo de S. Vítor, é o próprio Deus que ilumina a inteligência humana e dirige-a para si.

[4] “Termo criado por Aristóteles para indicar o ato final ou perfeito, isto é, a realização acabada da potência (Met., IX, 8, 1050 a 23)” (ABBAGNANO, 2007, p. 334).

[5] O parêntese é nosso.




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