[TRADUÇÃO] A alegria de ser filho de Deus - Frei Garrigou-Lagrange O.P.

 Tradução: Raul Costa.


A Virgem do Sorriso, pintura onde se retrata Nossa Senhora rindo, a qual surgiu por ocasião de haver Santa Maria curado Santa Teresa de Lisieux de uma profunda tristeza com apenas um sorriso. Há igualmente a devoção a Nossa Senhora do Sorriso.

 


A ALEGRIA DE SER FILHO DE DEUS

 

La vie spirituelle, nº 262, fevereiro de 1942

 

Permanecei em meu amor. Disse-vos estas coisas para que minha alegria seja em vós, e que vossa alegria seja perfeita (Jo XV, 11)

 

 

A Sagrada Escritura não raro nos diz que, nos tempos de prova, o verdadeiro cristão deve o mais possível prestar aos aflitos o reconforto, a paz e algo dessa alegria divina que eleva os corações e lhes permite continuar a viagem contra os ventos e marés rumo ao porto da salvação.

Assim convém, nas tristezas presentes, falar da alegria de ser filho de Deus e do dever de dar algo dessa alegria aos que dela nada têm.

Enquanto que na tristeza comum certa alegria inteiramente superficial se desloca, se agasta, e às vezes até se exaspera, a alegria cristã todavia, ao contrário, leva alívio aos aflitos. Esta deve ser a alegria do domingo, e o domingo a dá quando verdadeiramente, pela missa, pela verdadeira oração, permanece o dia do Senhor; ele porém se torna para muitos, ao contrário, com o cessar do trabalho, o dia mais triste, quando não é inteiramente santificado, quando não passa de um dia de divertimentos, de alegria só exterior, absolutamente oca e tola, da qual muitos não podem tomar parte e se afadigam em vez de repousar. A gente não sabe o que fazer de seu tempo, porque o já não dá para Deus; eis uma prova pelo inane e pelo vazio da necessidade da santificação do domingo.

Ao buscar unicamente uma alegria inferior, priva-se de outra singularmente mais preciosa.

Vejamos o que seja a verdadeira alegria espiritual segundo a Sagrada Escritura e segundo os santos, vejamos como eles a conservaram mesmo em meio aos seus sofrimentos, e assim aproveitemos ainda melhor o que podemos fazer para dá-la aos outros.

De modo algum se trata da busca da consolação sensível, nem de sentimentalismo, que é a afetação dum amor que não se tem. O sentimentalismo se assemelha à alegria espiritual de que falamos como a miçanga imita o diamante.

 

O que seja a verdadeira alegria espiritual?

 

Aproveitar-lhe-emos a natureza e o valor se a compararmos às alegrias legítimas menos elevadas. Eis que experimentamos uma alegria sensível: diante de um belo nascer do sol, ou na primavera diante do despertar da natureza. Temos uma alegria superior no pensamento de que somos filhos de um homem de bem, de uma boa mãe, e recordamos de bom grado as verdadeiras alegrias de uma família unida, de irmãos que se amam, felizes por trabalharem juntos e viver das mesmas tradições, dos mesmos pensamentos, dos mesmos afetos, em vista de uma ação comum, verdadeiramente fecunda. Nessa mesma ordem, experimentamos a alegria de sermos franceses, em meio às tristezas atuais, e de trabalhar pelo soerguimento de nossa pátria.

A alegria espiritual é de uma ordem ainda mais superior: é a alegria de ser filho de Deus pelo batismo, de ser amado por Ele como um filho adotivo, que recebeu uma participação de sua vida íntima e tende a possuí-la eternamente. É a alegria de estar na verdade, na verdade divina, de nela viver, de caminhar sobre a direção da Providência de Deus, para que Ele reine de mais a mais em nós, assim no tempo como na eternidade.

Essa alegria espiritual não é exatamente uma virtude, mas o fruto ou o efeito da mais elevada virtude, que é a caridade, ou o amor de Deus e das almas em Deus[1].

O amor de Deus, com efeito, leva-nos primeiro a regozijar disto, que Deus seja Deus, a Verdade mesma, a Sabedoria, o Bem infinito, a Bondade suprema, a Santidade mesma, a Beatitude perfeita.

O amor de Deus nos leva ademais a regozijar disto, que Deus reina nas almas, tanto na nossa como na do próximo.

A caridade por fim nos faz desde logo possuir a Deus na obscuridade da fé, porque ele disse: “Aquele que permanece na caridade, em Deus permanece e Deus nele”[2]. Nosso Senhor também nos disse: “Se alguém faz a vontade de meu Pai, meu Pai e eu amá-lo-emos, vir-lhe-emos e far-lhe-emos nossa morada”[3]. E nesse mesmo momento nos prometera Jesus o Espírito Santo, que de fato nos dera com a graça e a caridade no batismo, e mais ainda pela confirmação. A Santíssima Trindade habita assim em toda alma em estado de graça, e se faz por vezes sentir em nós como a vida de nossa vida. Certos momentos há, como o diz São Paulo, em que “o Espírito Santo dá testemunho em nosso espírito de que somos filhos de Deus”[4]. Ele faz esse testemunho ao inspirar-nos por Ele uma afeição inteiramente filial, que nos dá uma santa alegria e nos faz dizer: “Pai!”. Não é a consolação sensível, nem sentimentalismo, mas uma alegria verdadeiramente divina por seu princípio e objeto.

Tal é a alegria espiritual, no pensar que Deus é Deus, a Bondade mesma, que em nós e nos justos reina, que é a vida de nossa vida, e que nos chama a viver dEle desde a eternidade. Essa alegria vem do pensamento que, à exceção do pecado, sob a direção da Providência, tudo vem do eterno amor.

A alegria espiritual é pois manifestamente o fruto da caridade. Ao contrário, porém, a tristeza desordenada e deprimente é o efeito do amor desregrado de si mesmo, e procede do egoísmo insatisfeito, do orgulho ferido, da vaidade ofendida. Quanto mais na alma a caridade chega a dominar o egoísmo, tanto mais a má tristeza desaparece e mais dá lugar a uma santa alegria.

Contudo, essa alegria não poderá ser plena e perfeita como no céu, porque a caridade mesma na terra se entristece com o pecado que diminui o reino de Deus e acarreta a perda das almas. Além disso, apesar das tristezas da terra, os santos conservam, com a paz, uma alegria quista, que dão aos outros, sem todavia que eles próprios a sintam sempre.

Fala-nos muitas vezes a Sagrada Escritura dessa alegria espiritual. Jesus nos diz: “Permanecei em meu amor. Disse-vos estas coisas para que minha alegria seja em vós, e vossa alegria seja perfeita”[5]. São João Evangelista anela que seus discípulos tenham “a plenitude da alegria”, no pensamento de que são filhos de Deus e são chamados a gozar dEle eternamente[6]. Diziam já os Salmos: Laetamini in Domino et excsultate justi; “justos, alegrai-vos no Senhor e nEle exultai”[7]. São Paulo escreve aos Filipenses: Gaudete in Domino semper, interum dico vobis gaudete, “regozijai-vos sempre no Senhor; digo-vos outra vez: regozijai-vos”[8].

O mesmo São Paulo chega até a dizer: “Superabundo de alegria em meio às minhas tribulações”[9]. Os Atos dos Apóstolos dizem duas vezes: “Eles foram alegres por terem sido julgados dignos de sofrer pelo Senhor[10].

Explicando estas palavras, diz-se que “a alegria é o segredo gigantesco do cristão”. De fato, lembrando-se de seu batismo, ele não se esquiva ante as maiores provas, ao dizer: “Quero que Deus, meu Pai, queira por mim unicamente o que Ele quer, por mais duro seja o caminho por percorrer”. O cristão se entretém assim não consigo mesmo, mas com Deus, seu Pai, e, como o diz a Escritura, nessa conversação com Deus não há amargura: In conversatione Dei non est amaritudo[11].

Logo, a alegria cristã é possuir Deus e ser possuído por Ele. Por essa alegria, o verdadeiro cristão deve instigar aos outros de o ser. Deve repetir muitas vezes estas palavras da Escritura: “Senhor, na simplicidade de meu coração, ofereci-vos todas as coisas com grande alegria: guardai-me para sempre nessa vontade”[12]. A verdadeira alegria é a de tender na santidade do céu, com a certeza de que Deus, que jamais ordena o impossível, oferece-nos graças sem cessar para consegui-la.

Os santos guardam essa alegria espiritual, sem todavia a sentirem sempre, nem mesmo espiritualmente, e guardam-na assaz para dá-la aos outros, até nas suas provações. Por quê? Porque o Espírito Santo, pela afeição filial que por Ele os inspira, “dá-lhes ao espírito testemunho de que são filhos de Deus”. E recorda-os ainda que “aos que amam Deus”, e perseveram neste amor até o fim, “tudo concorre bem”[13]; tudo, inclusive as desgraças, as contradições, os achaques. Santo Agostinho acrescenta: até as faltas, sob a condição de humilhar-se delas, como o fizera São Pedro após a tríplice negação. Os santos entreviram de melhor em melhor o bem superior pelo qual a Providência permite os males da vida presente. Este bem superior, que veremos a descoberto, progressivamente entrevemos, na medida em que merecemos de o entrever, e o merecemos pondo em prática a palavra de Deus em vez de contentar-se de a conhecer e admirar.

São Francisco de Assis provou uma santa alegria quando se sentia desprezado e rejeitado. São Domingos igualmente quando era ridicularizado e maltratado pelos hereges de Languedoc; sentia que se tornava mais semelhante a Nosso Senhor, que por amor a nós aceitou as humilhações da Paixão. Assim também São Bento José Labre, o Santo Cura d’Ars e seu amigo, o Padre Chevrier de Lyon, São João Bosco, que em suas provações guardavam esse santo gozo, allegria, que transmitiam às criancinhas pobres, da qual nada tinham.

A irmãzinha dos pobres lhes difundia essa alegria, a irmãzinha da Assunção, todos os verdadeiros servos de Deus.

A Santíssima Virgem, nosso modelo, fora chamada de consoladora dos aflitos, causa de nossa alegria, e o coração de Jesus chamado as delícias dos santos.

 

 

Como dar esta alegria aos outros

 

Deve-se primeiro cuidar de não transmitir nossa própria tristeza; e se estamos abatidos, de não desencorajá-los. Deve-se dominar certa tristeza, como se resiste às tentações.

Evitemos também dar-lhes uma alegria tempestuosa, aprovando-lhes os erros, os desvios, os compromissos, suas faltas de juízo ou energia. Esta seria uma falsa caridade, a da fraqueza, que lhes daria uma alegria mentirosa.

Levemos algo dessa alegria espiritual a quem falta pão, aos que não têm saúde, vitalidade, a quem falta afeto, aos que carecem de generosidade, que não buscam tanto a Deus; demos-lhes ímpeto de a procurar. Demos Deus aos que o não têm.

Jesus então nos dirá no dia último: “Tive fome, e destes-me de comer; tive sede, fui enfermo, estive na prisão, e viestes a mim. A cada vez que assim o fizestes aos mais humildes dos meus irmãos, foi a mim que fizestes”.

Demos algo dessa alegria aos que são tentados a se amargurarem, lembrando-nos destas palavras de São João da Cruz: “Onde não houver amor, ponde amor, e recolhereis amor”. Nas grandes obscurezas, disse-nos uma vez: “Levanta-te e canta teu louvor à noite”.

Então de nossas trevas tão arraigadas, a luz poderá brotar para as outras almas.

O Bem-aventurado Henrique Suso, no livro da Sabedoria Eterna[14] escrevera três ótimas páginas sobre os cumes da alegria espiritual em meio às provas. As quais podem assim resumir-se usando de suas próprias palavras; ou antes são as que ele põe na boca do Senhor:

 

Tanto é duro sofrer, quanto é doce ter sofrido. O sofrimento, quando bem suportado, torna o homem amável, porque o faz semelhante a mim. A alegria do sofrimento (ainda que não sentida, mas quista) é tesouro escondido que ninguém jamais poderá merecer. Se alguém se ajoelhar diante de mim por cem anos a pedir-me a ventura de sofrer, ainda o não terá merecido. De homem terrestre, o sofrimento (suportado por amor) faz homem celeste. Faz que ao que sofre torne-lhe estranho o mundo, de sorte que minha ternura o envolva mais estreitamente. Os amigos do século se afastam da prova, e minhas graças de mais a mais o envolvem. Pois deve ser completamente renegado e desamparado do mundo aquele a quem quero ter por (íntimo) amigo. O sofrimento ressoará por toda a eternidade num cântico dulcíssimo, em novos refrões que jamais poderão repetir os anjos porque não sofreram.

 

Se Deus pudesse maravilhar-se e encantar-se de algo, seria de ver alguns de seus filhos que, por sua graça, chegam a levar suas cruzes com alegria seguindo o Senhor Jesus.

Isso deve levar-nos a receber sobrenaturalmente os descasos e até os desprezos, se houver[15]. Convém, avançando, recebê-los com alegria, se não sentida, ao menos quista, e agradecer ao Senhor pela graça que se acha escondida nas humilhações por suportar. Muitas vezes nos esquecemos de agradecer a Deus pelas cruzes que nos envia; elas foram, todavia, necessaríssimas ao nosso progresso. Não deixemos passar as que virão. Infelizmente o mundo está cheio de cruzes perdidas, que de nada servem, como de nada serviu a do mal ladrão. A verdadeira alegria espiritual é a de tender efetivamente na santidade do céu, pelo caminho que o Senhor nos escolheu, por mais penoso que seja em alguns momentos: eis a alegria de tender a essa santidade com a certeza de que Deus jamais ordena o impossível, que nos chama à vida da eternidade e nos oferece incessantemente as graças para alcançá-la.

 

Frei Reginaldo Garrigou-Lagrange, O.P.



[1] Cf. Santo Tomás, Summa Theologiae, IIª-IIae, q. XXVIII.

[2] Jo IV, 16.

[3] Jo XIV, 23.

[4] Rom VIII, 16.

[5] Jo XV, 11.

[6] IJo, 4.

[7] Sl XXI, 11.

[8] Fil IV, 4.

[9] II Cor VII, 4.

[10] At V, 41.

[11] Sab VIII, 16.

[12] I Par XXIX, 17.

[13] Rom VIII, 28.

[14] I pars, cap. IX e X (noutras edições e traduções Cartier, cap. XIX).

[15] Quando São João da Cruz pede como recompensa a Nosso Senhor “o sofrer e ser por Ele desprezado” (o que logo lhe fora concedido), foi uma enorme graça que desejou. Pois não é, com efeito, o desprezo em si mesmo que pediu, mas a graça de o suportar com amor. Sem essa graça, o desprezo em si mesmo de nada serviria para crescer na caridade e para glorificar a Deus.

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