[ARTIGO] Algumas considerações acerca da distinção entre ato e potência quanto à natureza da matéria prima em Suárez e nos Tomistas
Assunto de grande importância para toda a tradição clássica,
da qual a tradição escolástica faz parte, a distinção entre ato e potência
possui na escola tomista e em Francisco Suárez duas abordagens diferentes. Para
os primeiros, há uma distinção real e uma verdadeira contradição entre o ato e
a potência; para o segundo, principalmente na discussão a respeito da matéria prima,
nem toda potência repugna a noção de ato, havendo uma certa síntese das noções
de atualidade e potencialidade.
Segundo Suárez, quanto à matéria prima, esta não é pura
potencialidade para as diversas formas, mas há, na própria matéria prima, uma
certa atualidade imperfeita, que a faz ser apta para as diversas formas que são
capazes de ser. Abaixo, in verbis a
opinião do Doutor Exímio:
A matéria, enquanto pressupõe a forma e é sujeito da geração, não é o nada absolutamente, caso contrário, a geração proviria do nada: é, portanto, um ente atual e criado, vez que a criação não se completa em nada que não seja uma entidade atual e existente[1] (DM 13, s. 4, § 13, tradução nossa).
Por outro lado, quanto a este mesmo assunto, na escola
tomista prevalece a opinião de que a matéria prima seja uma pura
potencialidade, repugnando à noção de ato. Isso porque a atualidade repugna à
potencialidade, não podendo nada estar, ao mesmo tempo, em ato e em potência. Assim,
nesse sentido, diz João de Santo Tomás:
A matéria, por si mesma, não é quê, nem quanto, nem alguma outra determinação com a qual o ente seja determinado, no sentido de que a matéria não tem, por si, algo determinado da essência, ou da natureza, seja do gênero da substância, seja do gênero da quantidade, ou de qualquer outro gênero. Isto é, carece de toda forma de determinação do ser. Como explica Santo Tomás, a matéria não pode existir por si sem forma, pela qual o ente é em ato, pois por si mesma [a matéria] não é mais que potência[2] (Cursus philosophicus Thomisticus I–II, q. 3, a. 1, 361. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=MZ1PAAAAcAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 20 out 2022, grifo e tradução nossas).
Embora pareça que esses dois entendimentos da matéria prima
se contradigam e que a sua sobreposição lance dificuldades a respeito do
entendimento do que seja ato e do que seja potência, veremos que são dois
entendimentos possíveis a partir da própria formulação de Santo Tomás de Aquino
a respeito da natureza da matéria primeira.
Primeiro, admitamos, conforme a evidência trazida por Suárez
que a matéria prima tenha certo ser. Isso
porque, como já citado, o Doutor Exímio bem diz que se a matéria não tivesse certo ser, com um ato entitativo (que dá o ser) e um ato formal (que dá ser a matéria primeira), seria nada. Porém, isso não quer dizer que,
por ter certo ser, a matéria seja
algo perfeitamente determinado e que possa existir por si.
Nesse sentido, o próprio Santo Tomás afirma que a matéria,
ao ser criada, não o foi sem forma. Conforme
pode-se ver abaixo:
Tal objeção não prova que a matéria não seja causada, mas que não é causada sem forma; pois embora tudo o que é causado exista em ato, não é, todavia, ato puro. Por onde necessariamente, também aquilo que se comporta como potência é causado, se o todo do qual o seu ser faz parte é causado (Suma Theologiæ, I, q. 44, a. 2, ad. 3).
E a forma com a
qual a matéria prima foi criada é justamente ser pura potência, enquanto substrato para as mais diversas formas substanciais. Situação que
poderia ensejar a objeção de que se a noção de potência repugna à de ato, então,
isso seria contraditório.
No entanto, se considerarmos a potencialidade da matéria
conforme uma acepção positiva, ela é aptidão
para receber esta ou aquela forma substancial. E, nesse sentido, pode-se
dizer que a matéria tem certa potência
ativa, enquanto é essa própria aptidão ou
capacidade real para ser informada por esta ou aquela forma. E, como afirma
Santo Tomás, na I, q. 25, a. 1, ad. 1, a “potência ativa não se divide do ato,
por oposição, mas nele se funda; pois um ser age na medida em que é atual”.
Por mais que não seja a matéria que gere a forma substancial, ela possui o poder,
portanto, a potência ativa de eduzir,
segundo a ação de um agente, de si uma nova forma
substancial possível. Porém, quanto a esta edução mesma, que é obra de sua virtude, é potência passiva, dependente de outro agente para operar.
E assim também o é em relação a outras potências ativas,
como o intelecto agente. O intelecto agente por mais que seja uma
potência ativa quanto à produção da espécie
inteligível em geral, é passiva quanto às condições para produção da espécie inteligível em concreto.
Pois é necessário que um agente (no caso, um ente que tenha
determinada forma substancial ou a
mesma espécie inteligível comunicada)
se apresente ao intelecto, conforme o modo próprio de o homem conhecer, para
que ele passe a abstrair a forma. De modo que não possuímos as espécies inteligíveis daquilo que não
possuímos contato. E, quanto à matéria
prima, dá-se algo semelhante.
Uma vez dito que a matéria
prima possuir um ato entitativo e
um ato formal não implica contradição
com o fato de ser pura potência,
precisamos saber se, como parece afirmar Suárez, ela é uma substância. João de Santo Tomás,
representando a escola tomista, afirma categoricamente que a matéria prima não pode ser substância,
pois não pode existir sem a forma.
E, para isso, usemos uma analogia que o próprio Santo Tomás
usa ao afirmar a substancialidade da alma
humana:
Ora, o que pode conhecer certas causas, necessariamente não deve ter nada delas, na sua natureza, porque a causa que a esta fosse naturalmente inerente impedir-lhe-ia o conhecimento das outras. Assim, vemos que a língua do doente, afetada de humor colérico e amargo, nada pode sentir de doce, mas tudo lhe parece amargo. Se, pois, o princípio intelectual tivesse em si a natureza de algum corpo, não poderia conhecer todos os corpos, porque cada corpo tem a sua natureza determinada. Logo, é impossível que o princípio intelectual seja corpo. E, semelhantemente, também é impossível que intelija por meio de órgão corpóreo, porque também a natureza determinada desse órgão corpóreo impediria o conhecimento de todos os corpos.
Assim, se uma determinada cor estivesse, não só na pupila, mas ainda num vaso de vidro, o líquido contido neste seria dessa mesma cor (Suma Theologiæ, I, q. 75, a. 2).
De maneira semelhante, se a matéria prima tivesse uma forma
substancial e, portanto, fosse uma substância,
haveria impedimento quanto à recepção das diversas outras formas substanciais, uma vez que algo é recebido na medida do
recipiente.
Desse modo, se a matéria
prima tivesse, por si mesma, existência e, portanto, substancialidade, não poderia ser o substrato da geração e da
corrupção dos entes físicos, pois não teria mais sua aptidão para receber qualquer forma. Assim, seria outra coisa que
não esse substrato e, portanto, não seria matéria
prima.
Percebemos, portanto, que, se se deve conceder a Suárez que
a matéria prima tenha certo ato entitativo, não se deve
conceder que ela seja substância nem que cause nebulosidade à distinção real
entre ato e potência afirmada pela escola tomista.
Porque o modo como a matéria
prima se diz ser pura potência
não se contradiz com o fato de ter algo
de determinado ainda que imperfeito, mas, antes, o pressupõe; nem é causa
de necessidade para afirmar sua substancialidade,
vez que, se assim fosse, não seria mais o que é.
[1]
Em latim, temos: “Materia ut
praesupponitur formae, et est subjectum generationis, non est omnino nihil,
alias generatio fieret ex nihilo: est ergo aliqua entitas creata: ergo entitas
actualis et existens, quia creatio non nisi ad actualem entitatem, et
existentem terminatur”.
[2]
Em latim, temos: “Quod materia per
seipsam necque est quid, necque quantum, nec aliquid aliud quidpiam dicitur,
quibus ens determinatur. Cuius sensus est, quod materia non habet ex se aliquid
determinatiuum essentiæ, seu naturæ, sive in genere substantiæ, sive in genere
quantitatis, sive alterius generis, id est, caret omni forma determinante esse,
& ut ibi explicat D. Thomas, lect. 2. Materia, inquit, non potest per se
existere sine forma, per quem est ens actu, cum de se potentia sit tantum”.
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