[ARTIGO] Breve introdução à Filosofia em perguntas e respostas

Baseado em populares e introdutórios manuais.

Por: Iago Nicolas Soares


O que é Filosofia?

Etimologicamente significa o amor pela sabedoria (definição dada por Pitágoras segundo Diógenes de Laércio). Sua definição mais precisa, no entanto, é: A ciência das causas supremas dos entes por meio da luz natural da razão. Ciência, pois a Filosofia é um conhecimento principalmente do certo e necessário, e não do provável. Das causas supremas, pois, distintamente das ciências subordinadas e particulares, trata dos princípios mais remotos e mediatos dos seres e que fundamentam as ciências que tratam das causas mais próximas e imediatas. Dos entes, porque seu objeto material é tudo quanto há de real e suas notas essenciais. Por meio da luz natural da razão, visto que, distintamente da fé, baseia-se naquilo que a inteligência humana pode alcançar por sua natureza, mesmo que com grande esforço.

 

Do  que a Filosofia trata?

 "Disse que a filosofia estuda o Universo. Primariamente, é do mundo sensível que se ocupa, porque é esse o primeiro que conhecemos. Os seres inanimados, com as transformações que sofrem e as leis que os regem; as plantas, seres vivos que se nutrem o reproduzem; os animais, que se movem, dotados de sensibilidade mais ou menos desenvolvida, e de conhecimento capaz de dirigir a sua atividade; finalmente, o corpo humano, são coisas que os sentidos nos revelam, diretamente, e que a filosofia estuda, do seu ponto de vista próprio.

Mas a reflexão abre ao homem um campo totalmente diverso. O homem vê-se pensar; e pode estudar as condições em que o pensamento é possível, e estudar-se a si mesmo como ser pensante. Consegue assim, de si mesmo, conhecimentos que nunca obteria dos outros homens, o que pode generalizar aos outros na medida em que os vê iguais a si. E todos estes conhecimentos entram na filosofia, se forem vistos à maneira filosófica.

Mais: a filosofia pode investigar se são possíveis inteligências imateriais, e como poderão ser. Não pode talvez demonstrar propriamente a sua existência; mas pode mostrar que, sem ela, fica incompleto o conjunto dos seres, e concluir que ela é, pelo menos, muito provável. Por outro lado, dada a sua existência, que a teologia afirma, pode a filosofia estabelecer a maneira por que se distinguem e subordinam, o seu processo de conhecimento, etc.

Finalmente, a filosofia pode remontar à Causa de todos os seres, ver em que provas se funda a sua existência, e o que podemos saber a seu respeito, partindo do que sabemos das coisas.

Ocupa-se portanto a filosofia dos corpos materiais, vivos ou inanimados, do homem, dos Anjos, de Deus, numa palavra, pretende tratar de todo o ser, de tudo quanto existe, no que é, nas suas condições de existência, nas suas mudanças, nas suas relações com os outros seres; pretende tratar do que é, foi ou há-de ser; de tudo o que pode ser, até porque a simples possibilidade também é matéria de especulação filosófica; e, sempre, quer considere o ser, atual ou possível, na realidade das coisas, quer o considere simplesmente na inteligência."

(Manuel Correa de Barros, Lições de Filosofia Tomista)

 

Qual a utilidade da Filosofia?

A Filosofia é utilíssima para o indivíduo e para a sociedade.

a) É utilíssima para o indivíduo. - Porquanto, a Filosofia aperfeiçoa as mais nobres faculdades, de que o homem é dotado e que são a inteligência e vontade. - Aperfeiçoa a inteligência, elevando-a ao conhecimento das causas supremas dos seres criados, e até ao conhecimento do próprio Deus. - Aperfeiçoa a vontade, guiando-a, pela prática das virtudes morais, à consecução da felicidade eterna, ainda que na ordem natural. Logo, a Filosofia é utilíssima para o indivíduo.

b) É utilíssima para a sociedade. - Porquanto, a sociedade, sendo uma reunião de indivíduos para o alcance de um bem comum, exige o concurso eficaz e proporcionado de todos os seus membros. Tal concurso dos membros da sociedade consiste na soma das forças, especialmente morais, com que eles conspiram para o fim e que derivam da aplicação dos princípios da verdade e da moralidade. Ora, os princípios da verdade e da moralidade, de cuja aplicação derivam as forças morais, são ensinados e inculcados pela Filosofia. Logo a Filosofia é utilíssima para a sociedade.

(Elementos de Filosofia, Thiago Sinibaldi)
 


Qual a relação da Filosofia com as ciências particulares?

Segundo Maritain, a Filosofia tem três funções com relação às ciências particulares: dirigir, julgar e defender.

A Filosofia dirige as ciências inferiores com a) seus princípios e b) determinando suas finalidades. Dirige com seus princípios, pois cabe a ela o conhecimento dos primeiros princípios e causas que fundamentam as ciências, subordinando-as, portanto, às suas premissas e conclusões. Determina a finalidade das ciências, não para dirigirem-se aos seus objetos próprios, mas para compreenderem suas relações e subordinações com o fim de outras ciências, evitando assim a extrapolação do domínio próprio. Além disso, a Filosofia guia as ciências para seu fim comum, e que não podem por si mesmas alcançarem, que é a Sabedoria.

Ademais, a Filosofia julga as demais ciências, visto que, apesar de cada ciência ser senhora de si, e que uma ciência ao enganar-se sobre si pode julgar-se, a Filosofia pode julgá-la na medida que seu erro venha a chocar-se com algumas de suas verdades ou princípios. O cientista, portanto, subordina-se ao metafísico (enquanto pessoas, o cientista e o metafísico podem ser uma só). No entanto, se ocorrer de um filósofo contradizer um dado científico certo, não é a ciência que o julga com sua luz própria, mas a Filosofia que repreende o próprio filósofo que deve se inclinar à verdade.

Por fim, a Filosofia defende quando as ciências partem de um princípio ou premissas que não podem por si mesmas defenderem, necessitando assim recorrer a uma ciência superior. O físico e o matemático, por exemplo, necessitarão da ciência filosófica quando negarem a realidade material ou o valor dos axiomas.

 

Qual a relação da Filosofia com a Teologia?

Inicialmente, é preciso saber que a Teologia é a ciência de Deus. Ela trata daquilo que o homem por suas próprias forças naturais não pode alcançar: a Revelação Divina. Ou seja, daquilo que Deus revela para o homem sobre Si mesmo, de seu íntimo; por isso, sua luz é a da fé sobrenatural, enquanto que a luz da Filosofia é a razão natural. Os princípios da Teologia são as verdades reveladas. Estas partem de princípios não evidentes, a autoridade divina, enquanto que os princípios da Filosofia partem das evidências da razão e do sensível.

Pela excelência de sua luz e dignidade do conteúdo, visto que seu conteúdo surge do íntimo do próprio Deus que se revela, a ciência teológica está acima de todas as outras ciências, inclusive da Filosofia. Ela é a Sabedoria por excelência. Por causa de sua excelência e luz, a Teologia, estando acima da Filosofia, julga ela na medida que a Filosofia nega e contraria seus princípios e dogmas. No entanto, Filosofia não necessita da Teologia para a defesa de seus princípios.

Apesar de estar sob a regulamentação da Teologia, a Filosofia presta serviços à ciência divina. Embora a Teologia em si mesma não necessite da Filosofia e seja absolutamente independente dela, por causa da debilidade do intelecto humano necessitamos dos princípios filosóficos para nos aprofundarmos na ciência teológica (revelação virtual). Por isso, a Filosofia é chamada de ancilla theologiae (escrava da teologia). Além disso, a Teologia se serve da Filosofia para conseguir analogias tiradas das criaturas para darem certa inteligência aos dogmas (o verbo mental para ilustrar a geração de Deus Filho, por exemplo) e também serve-se dela para a refutação dos adversários do dogma.

 

Quais as fontes da Filosofia?

"Sendo a Filosofia o conhecimento natural dos entes pelas causas supremas, é claro que as suas legítimas fontes devem ser os livros os escritores, que trataram, com verdade e sapiência, os grandes problemas relativos ao mundo, ao homem, a Deus. Sobre todos os escritores levanta-se, como o sol entre outros astros, o grande Santo Tomás de Aquino, a quem, pela sublimidade do talento e pela inocência da vida, a Igreja deu o nome de Doutor Angélico. Tudo o que de verdade se encontra nos escritos dos Filósofos pagãos, dos Padres e Doutores da Igreja, e de todos os sábios que os precederam, Santo Tomás não só conheceu perfeitamente, mas aumentou, completou e ordenou com tal firmeza de princípios, com tal severidade de raciocínio, com tal perspicuidade e propriedade de linguagem, que a sua doutrina não só resolve e esclarece os mais árduos problemas, mas se adapta maravilhosamente às necessidades de todos os tempos, e tem a força de refutar todos os erros, passados, presentes e futuros. Levado por esses motivos, o Santo Padre Leão XIII declarou Santo Tomás Patrono de todas as escolas católicas."

(Thiago Sinibaldi, Elementos de Filosofia)
 

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