[TRADUÇÃO] Como o poder real de Cristo é universal - Do cap. III do opúsculo de Padre Hugon, intitulado "A festa especial de Jesus Cristo Rei".

Tradução: Raul Costa.

 


A FESTA ESPECIAL DE JESUS CRISTO REI

 


CAPÍTULO III

Como esse poder real de Cristo é universal sobre todos os homens e sobre todas as sociedades

 

O Salvador é rei de todos aqueles sobre os quais refulge a influência de sua graça capital[1]. Essa ação é manifesta nos bem-aventurados, aos quais ele mereceu a graça e a glória, e nos justos, aos quais comunicou a graça e a caridade. Ela se estende aos fiéis mesmo pecadores, que têm dele as virtudes sobrenaturais da fé e da esperança; vai ela até aos cismáticos, aos hereges, aos judeus, aos pagãos, aos infiéis, porque todos recebem dele socorros de iluminação e de inspiração para sair de sua miséria e chegar à salvação. Eis por que o Papa Alexandre VIII, no dia 7 de dezembro de 1690, condenou esta proposição: “Os pagãos, os judeus, os hereges e os outros que estão nas condições deste gênero não recebem de nenhuma maneira a influência de Cristo[2]”. — Ele morreu por todos e por cada um; todos são verdadeiramente sua conquista. “Ele é dos povos que não têm nem Eucaristia, nem batismo, nem sacerdotes; não há ninguém que esteja inteiramente subtraído à influência do Verbo feito carne. As nações, até as mais degradadas, que vivem imersas na ignorância e no crime, são às vezes visitadas pelo Homem-Deus: porque, apesar de tudo, recebem elas luzes, clarões sobrenaturais, graças atuais, e esta é a atividade instrumental da Humanidade gloriosa que lhes traz estes socorros[3]”.

Os próprios anjos devem a Jesus Cristo certas graças, certas alegrias novas ou glórias acidentais, porque a Encarnação, elevando os homens ao nível dos coros angélicos, repara as ruínas que o pecado havia feito nas celestes hierarquias, e porque a contemplação de uma Humanidade tão perfeita acrescenta uma fineza à felicidade deles.

Ele já não comunica a vida sobrenatural aos condenados, mas reina ainda por sua justiça sobre todos aqueles que o não quiseram deixar reinar pela misericórdia e pelo amor.

 

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De tudo o que acabamos de expor resulta com inteira evidência que a realeza de Jesus Cristo a título de herança e em virtude da união hipostática se estende a todas as criaturas sem exceção, e que sua realeza a título de conquista e pela graça capital se estende a todas as criaturas racionais, especialmente aos homens, resgatados por seu sangue.

E, porque ele reparou nossa natureza toda inteira, corpo, e alma, e faculdades, deve ele reinar em nosso interior, ao qual diviniza pela graça santificante; em nossa inteligência, a qual deve aferrar-se a seus preceitos; em nosso coração e nossas afecções, a fim de não amar nada nem ninguém mais do que a ele, tanto quanto ele, apesar dele[4]; em nossos membros, os quais devem cooperar como instrumentos para a obra da justiça e da santidade, para sua glória e sua honra, arma iustitiae Deo[5].

As mesmas razões provam que essa realeza deve ser universal, sobre toda a sociedade.

Reunidos e agrupados em sociedade, os homens não poderiam estar subtraídos ao império do Salvador, e os deveres que incumbem aos indivíduos ligam a nação, a pátria, os Estados, que são os obrigados de Deus e de seu Cristo, mais ainda que o homem privado. O Cardeal Pie defendeu valentemente estes direitos divinos contra as denegações da incredulidade e do liberalismo; cita ele neste sentido a magnífica carta de Santo Agostinho a Macedônio, alto funcionário do império: “Sabendo que sois um homem sinceramente desejoso da prosperidade do Estado, peço-lhe que observe o quanto é certo pelo ensinamento das Sagradas Cartas que as sociedades públicas participam dos deveres dos simples particulares e não podem encontrar a felicidade senão na mesma fonte. ‘Bem-aventurados, diz o Rei-profeta, o povo cujo Deus é o Senhor’. Eis o anelo que devemos formar em nossa sociedade cujos cidadãos somos nós; porque a pátria não poderia estar em outra condição que o cidadão individual, pois a cidade não é outra coisa que certo número de homens colocados sob uma mesma lei”.

E, a fim de estabelecer que a sociedade deve submeter-se à realeza de Cristo, o bispo de Poitiers declara: “O reino visível de Deus sobre a terra é o reino de seu Filho encarnado, e o reino visível de Deus encarnado é o reino permanente de sua Igreja... O dogma católico consiste todo inteiro no encadeamento destas três verdades: um Deus reside no céu; Jesus Cristo, o Filho de Deus, enviado aos homens; a Igreja, órgão e intérprete permanente de Jesus Cristo sobre a terra. Ora, estas três verdades ligadas umas às outras são o triplo feixe que é impossível de romper[6].

 

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Para provar os direitos soberanos de Cristo sobre as nações e sobre os Estados, basta recordar que ele é como Deus o autor, o conservador, o benfeitor da sociedade, e como Verbo encarnado o princípio e a fonte de que derivam para as sociedades, como para os indivíduos, as energias indispensáveis à salvação e à prosperidade.

Primeiro, manifesto é que Deus é o autor da sociedade, porque é dele, como o explica Leão XIII, que deriva a autoridade, sem a qual não há governo[7]. E, assim como toda criatura tem necessidade da influência contínua de Deus para subsistir e de seu auxílio imediato para agir e tender a seu fim próprio, assim também a sociedade tem necessidade da ajuda incessante de Deus para viver, desenvolver-se, progredir, atingir sua perfeição. Eis por que, acrescenta Leão XIII, a sociedade exterior que recebe de seu autor tais benefícios, tem-se por um dever rigoroso o honrar a Deus com culto público, religione publica satisfacere.

Mas, na condição presente da queda, nossa pobre humanidade é como o viajante de Jericó, espoliado, ferido, pisado[8], com o livre arbítrio enfraquecido, inclinada ao mal, infirmatum, viribus attenuatum et inclinatum, segundo a expressão do Concílio de Orange e do Concílio de Trento[9].

São Paulo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Tomás, dizem-nos com irresistível eloquência que o homem é impotente para observar a lei natural sem a graça do Mediador[10].

Se os indivíduos não podem sequer sem um tal socorro guardar a honestidade fundamental do decálogo, como a sociedade toda inteira poderá ser-lhe fiel, a menos que seja regenerada pela virtude divina? Ora, toda energia divina, todo complemento sobrenatural, toda graça, são uma esmola da Encarnação, sendo o Cristo a única fonte donde se deve beber para ter a vida. Foi para as sociedades, não menos que para os indivíduos, que o Santo Padre disse: “Não há salvação senão nele, e não há debaixo do céu outro nome que prometa a salvação à raça decaída”[11].

Além disso, a história aí está para mostrar que a civilização avança ou recua na medida mesma em que a sociedade aceita ou rejeita o reino bendito de Jesus Cristo, que tudo o que há de fino nas nações modernas vêm-lhes do Evangelho, que os povos, por mais ingratos que sejam, abeberam-se na luz de Cristo e da Igreja. O novo Adão, que é o Cristo, explica Leão XIII, estabeleceu a verdadeira fraternidade humana, fraternidade dos indivíduos entre si e das nações entre si[12]. As nações, acrescenta Pio XI, têm necessidade da paz de Cristo no reino de Cristo[13]. “A terra vai tremer em sua base e agitar-se em suas entranhas, exclama Monsenhor Pie, bispo de Poitiers, ela não encontrará seu assento; até que um abalo favorável tenha reparado a perturbação e as desordens trazidas ao equilíbrio político do mundo cristão pelo desaparecimento de seu chefe”[14].

Mas, se é vero que Nosso Senhor é a fonte dos bens verdadeiros para os indivíduos, as famílias, as nações, manifesto é igualmente que todos os homens e todas as sociedades têm a obrigação de reconhecer seus benefícios, que os poderes públicos não poderiam sem iniquidade subtrair-se a seu reino social.

Tal é a substância dessa doutrina indiscutível: Jesus Cristo é o rei das nações e das sociedades: como Deus, a mesmo título que o Pai; como homem, em virtude da união hipostática e porque ele lhes outorga os meios e os socorros sem os quais elas não poderiam atingir sua prosperidade e seu fim completo[15].



[1] Cf. SANTO TOMÁS, III, q. VIII.

[2] DENZINGER, 1295.

[3] La causalité instrumentale, p. 115.

[4] Cf. SANTO TOMÁS, II-II, q. CLXXXIV, art. 3, ad 3.

[5] Rm VI, 13.

[6] La royauté sociale de N.-S. Jésus-Christ d’arpès le cardinal Pie, p. 32. — SANTO AGOSTINHO, P.L, XXXIII, 670.

[7]Civili hominum communitati necessariam esse auctoritatem qua regatur, quae, non secus ac societas, a natura proptereaque a Deo ipso criatur auctore”. Encíclica Immortale Dei, 1 de novembro de 1885. LEÃO PP., ACTA, vol. V, p. 120.

[8] Lc IX. Vide, a este propósito, a interpretação do Venerável Beda, P.L., XCII, 468, 469.

[9] Concílio de Orange, cân. XIII; Concílio de Trento, sess. VI, cap. I.

[10] Rm VII, 17-25; SANTO AGOSTINHO, Serm., 248, P.L., XXXVIII, 1160; SANTO AMBRÓSIO, In Ps. XLIII, 71, P.L., XIV, 1123; cf. SANTO TOMÁS, I-II, q. CIX, art. 4 e art. 8.

[11] Act., IV, 12.

[12] LEÃO XIII, Lettre aux évêques du Brésil, 5 de maio de 1888, Act. LEONIS PP. XIII, t. VIII, p. 175.

[13] Act. Apost. Sed., dezembro de 1922.

[14] Op. cit., p. 184. Citemos estas palavras do mesmo bispo a Napoleão III: “Mas sou bispo, e como bispo lhe respondo: pois bem, o momento ainda não chegou de Cristo Reinar. Então não chegou o momento de os governos durarem”, ibid, p. 79.

[15] Este último argumento pode resumir-se assim. As nações e as sociedades devem reconhecer como seu soberano aquele de quem elas recebem de maneira constante os auxílios necessários para atingir seu fim. Ora, o Cristo mesmo como homem é este princípio do qual as nações e as sociedades recebem os auxílios indispensáveis. Logo, o Cristo todo inteiro, e até como homem, deve ser reconhecido como soberano das nações e das sociedades.

A encíclica diz expressamente que seria um erro grosseiro contestar a Jesus Cristo Homem o império absoluto sobre todas as coisas civis: “Turpiter, ceteroquin, erret qui a Christo homine rerum civilium quarumlibet imperium abiudicet”. Act. Apost. Sedis, XVII, 600.


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