[TRADUÇÃO] Foi derrotada a teoria clássica do Direito Natural pelo argumento da falácia naturalista? — Artigo de Carlos Augusto Casanova

Tradução: Raul Costa.


Foi derrotada a teoria clássica do Direito Natural pelo argumento da falácia naturalista?

 

Has the Naturalistic Fallacy Refutation Truly Defeated Classical Natural Law Theory?

 

Carlos A. Casanova

(Universidade Santo Tomás e Universidade Bernardo O’Higgins, Chile)

 

 

Recebido: 19/12/2013

Aceite: 27/02/2014

 

Resumo

 

Este escrito considera e distingue duas objeções que de ordinário se pensa que se dirigem contra uma concepção ética realista: a falácia naturalista de G. E. Moore e a lei de Hume. Depois de haver exposto ambas as objeções, desdobrando seus pressupostos e consequências e respondido a todos eles, conclui que é possível hoje sustentar uma ética realista. Estrutura-se à maneira de uma questão disputada, dividida em seis artigos.

 

Palavras-chave: G. E. Moore, noção de bem, lei de Hume, ética realista, razão prática.

 

Abstract

 

This paper considers and distinguishes two objections which ordinarily are thought to oppose a realistic conception of ethics: G. E. Moore’s naturalistic fallacy and Hume’s law. After having presented both objections, having developed their presuppositions and consequences and having answered each of them, the paper concludes that it is possible to hold today a realistic conception of ethics. It is structured in the style of a disputed question, divided in six articles.

 

Keywords: G. E. Moore, notion of the good, Hume’s law, realistic ethics, practical reason.

 

 

LOGOS. Analaes del Seminario de Metafísica                                        ISSN: 1575-68688

Vol. 47 (2014): 37-54                     http://dx.doi.org/10.5209/rev_ASEM.2014.v47.45801


 

Nas páginas que seguem, vamos considerar um grupo de problemas que têm que ver com a existência e até a possibilidade de uma ética realista. Todos conhecem, mais ou menos, que nos dois e meio últimos séculos puseram-se em questão esta existência e possibilidade, aduzindo que do ser ou das coisas que existem realmente não se pode seguir o dever ser. Além disso, a maioria pensa que este é o conhecido argumento da falácia naturalista. Aqui distinguiremos do melhor modo possível dois argumentos diferentes que se conhecem nos círculos filosóficos como a “falácia naturalista”, assim alcunhada por G. E. Moore, e a “lei de Hume”. Vamos expô-los e lhes vamos dar resposta.

Realizaremos uma breve apresentação dos contextos em que se adentraram ambos os argumentos, e a combinaremos com uma questão disputada, dividida em vários artigos mui compactos, que desdobram as diversas facetas e dificuldades que entranha este assunto, e que se estruturarão seguindo o modelo que nos deixaram as obras de Santo Tomás. A apresentação dos contextos consistirá em um breve resumo, por uma parte, de alguns aspectos da obra Principia Ethica de G. E. Moore, e, por outra, de alguns pressupostos da obra de David Hume e Emanuel Kant.

 

1. Principia Ethica, de G. E. Moore

 

Contrariamente ao que se supõe de ordinário, Moore não escreveu esta obra para refutar o Direito Natural Clássico. Escreveu-a, antes, para refutar o utilitarismo hedonista, o psicologismo, o sociologismo, uma certa classe de hegelianismo e o kantismo. Segundo este autor, a moral se ocupa de duas perguntas: que coisas são boas e devem ser promovidas, e como devem as ações humanas promover essas coisas que são boas. As coisas boas o são porque encontra-se presente nelas uma propriedade, o bem, que é simples, que não é uma realidade natural e que não é susceptível de definição (§§ 6, 8, 9, 13). Com base em todas estas características do bem, Moore refuta as diversas escolas morais em voga em sua época, arguindo que incorrem na “falácia naturalista”. Segundo ele, filósofos vários identificaram o bem com outras propriedades que talvez sempre acompanhem as coisas que são boas, incorrendo assim em uma falácia. Como o mais ordinário é que tenham identificado o bem (que não é uma propriedade física ou natural) com propriedades físicas ou naturais, como a sensação de prazer ou o ser desejado [de fato], Moore decidiu chamar a essa falácia de “falácia naturalista” (§§ 6, 10, 11, 12). Apesar disso, ele não pensava que fosse exclusiva dos utilitaristas (Bentham) ou dos spencerianos ou dos psicologistas (Mill) ou dos sociologistas (Clifford), mas atribui-a também a certos pensadores, como a Kant e Hegel, que identificam o bem com uma coisa diferente, embora não se trate de uma realidade natural, mas de um traço que existe num mundo suprassensível e real, como a retidão da vontade ou o “Reino dos Fins”, por exemplo (§§ 25, 26, 66-67, 76-77, 83, 84, 85, 108).

Moore abandona com clareza o nominalismo porque postula que o bem é verdadeiramente uma propriedade dos objetos ou coisas cuja captação pertence ao intelecto (§§ 79-80). Por isso lhe parece óbvio que o voluntarismo e formalismo kantiano têm que ser falsos: a vontade por si só não pode constituir o bom nem fundar a boa ação ou a obrigação moral (§§ 75-76). Por sua vez, Moore resgata de Kant a distinção entre volições e paixões, apartando-se nisso de Hume (§§ 78 e ss.). A profundidade das intuições e da energia com que se desdobram deveria ter convertido a este notável autor no início de uma restauração da ética realista na corrente principal da tradição filosófica de fala inglesa.

Apesar disso, alguns traços de suas obras, que discutiremos nos artigos seguintes, impediram que se convertesse na sobredita restauração. Comecemos o exame desses traços com a crítica colateral, embora explícita, que dirigem a Aristóteles os Principia Ethica.

 

Artigo 1. Se Aristóteles incorreu na falácia naturalista

E parece que sim.

[Objeção:]

1. Com efeito, Aristóteles identificou na Ética a Nicômaco o bem com a theoría (§ 106).

[Corpo da resposta:]

Respondo que Aristóteles distinguiu mui claramente entre o bem humano e o bem em geral[1] e limitou o objeto da ética à discussão do bem humano. O estudo do bem em geral não pertence à ética, mas à filosofia primeira e à filosofia natural. Moore não pode perceber que sua leitura de Aristóteles é errada porque não conhece a fundo a filosofia aristotélica e porque, por sua vez, atribui o conhecimento do bem exclusivamente à ética. Nisto é um filho da tradição empirista que, ao menos desde Locke, e por causa do nominalismo, inclui a consideração do bem em geral dentro do estudo das paixões humanas cuja raiz seria a paixão do prazer[2].

Embora no que se refere ao bem humano certamente Aristóteles não reduza o bem moral à contemplação ou às virtudes dianoéticas, mas considera também as ações conformes às virtudes éticas como parte importante desse bem. Como se fosse pouco, Aristóteles assinala que, além do bem moral, existem bens aos quais tendem as diversas técnicas e os bens naturais e de fortuna. Com isto fica patente a resposta à objeção.

 

Artigo 2. Se o bem pode identificar-se com o ser, e se, por consequência, o conhecimento destas duas propriedades ou realidades pode pertencer ao mesmo tipo de ato do entendimento

E parece que não.

[Objeções:]

1. Com efeito, como sustenta Moore, “bem” tem que consistir em uma propriedade diferente de “ser”, conforme o argumento conhecido como da pergunta todavia aberta, que ele assim formula neste contexto: “De qualquer coisa que provemos que exista [...], continua havendo todavia uma pergunta distinta e diferente acerca de se o que assim existe é bom [...]. Afirmar uma coisa clara e obviamente não é o mesmo que afirmar a outra. Entendemos o que queremos dizer quando perguntamos: isto, que existe, ou que necessariamente existe, afinal, é bom? E percebemos que estamos traçando uma pergunta que todavia não se respondeu. Ante o fato desta percepção direta de que as duas questões são distintas, nenhuma prova de que elas devam ser idênticas podem ter o mesmo valor” (§ 74).

2. O argumento anterior pode reforçar-se com uma consideração adicional. Quem sustenta que o bem tem que existir, não percebe que as proposições podem dividir-se em três grandes tipos: as de experiência, como que eu estou aqui, escrevendo este artigo; as científicas, como que 2 + 2 = 4; e as relativas ao bem. Os filósofos empiristas pensaram equivocadamente que uma proposição não pode ser condicionalmente verdadeira, como o são de ordinário as proposições científicas, mas a soma, por exemplo, significaria que, até agora, em todos os casos em que duas coisas de experiência foram postas junto com outras duas coisas de experiência resultaram quatro coisas de experiência. Reduzem, pois, todas as proposições a proposições de experiência. Os “metafísicos’, tal como os entende Moore, ou seja, os pensadores da tradição platônico-agostinista, entre os quais se contam Leibnitz, Kant ou Bradley, têm o mérito de abrir espaço para entender as proposições de um modo um pouco mais amplo: a soma pode ser verdade, embora não signifique que sempre na experiência duas coisas acrescentadas a outras duas deram lugar a quatro. De maneira análoga, as proposições “isto seria bom, se existisse” ou “isto é bom” são interpretadas pelos empiristas como “isto existiu e foi desejado” ou “isto é desejado de fato”. Os “metafísicos”, por sua vez, abrem novamente lugar para proposições que não sejam proposições de experiência no que se refere ao bem. Mas incorrem em outro erro: não entendem as proposições científicas e éticas no sentido que realmente têm, um sentido condicional ou um sentido propriamente ético. Esta é a causa pela qual os metafísicos pensam que, para que as proposições do segundo e terceiro tipo sejam verdadeiras, tem que existir alguma classe de Realidade suprassensível à qual correspondam elas ou seus predicados, entre os quais se contam o “bem”. Essa Realidade consistiria em um estado da mente de Deus, segundo Leibnitz; ou em um estado da razão humana, segundo Kant; ou em algo existente em algum estado, segundo Bradley. (§§ 71-74).

3. Além disso, de acordo com Hume, as percepções se dividem em duas grandes classes, já sejam “idéias”, já sejam “impressões” (que incluem, por exemplo, as paixões de amor e de ódio). Os juízos sobre o que é bom ou mau são “impressões”, não idéias. Mas somente os juízos sobre as idéias podem ser verdadeiros ou falsos, pois a verdade e falsidade residem em certas relações entre as idéias [note-se bem, as idéias, não as impressões] ou entre estas e a existências reais ou os fatos [“matters of fact”]. Algo que julgamos mal, como um homicídio, por exemplo, se se examina com cuidado, não revelará em sua estrutura objetiva nada que permita dizer que considerá-lo “mal” seja verdadeiro ou falso. Essa etiqueta designa o sentimento que a ação desperta no peito do observador, mais bem que algo que se encontre na realidade. Como as cores ou o calor, o bom ou o mau não são senão percepções que se encontram na mente, não nos objetos[3].

Contra está o que diz o Angélico, que o bem é uma noção transcendental, que pode converter-se com o ser[4]

[Corpo da resposta:]

Respondo com Peter Simpson[5] que o bem se diz em muitos sentidos, mas em um deles é uma noção transcendental. Ser uma noção transcendental significa que é intercambiável com a de ser. Mas, embora seja intercambiável, não é idêntica, porque aquela acrescenta uma razão intencional a esta. — No caso do bem, a de conter o ser que pode preencher o desejo da vontade ou simplesmente merecer sua aprovação ou ser capaz de causar seu gozo (como se dá nas realidades imóveis, divinas ou angélicas). Ser uma noção transcendental também significa que se dá em todas as categorias sem ser ela mesma uma categoria. É metagenérica e, portanto, não se pode definir[6]. Além disso, alguém pode entender cada coisa por meio de uma noção categorial, como a de “alimento”, ponhamos porventura, ou com uma noção transcendental, a de bem, que não acrescenta nada real ao mencionado com “alimento”, mas uma razão diferente. Ser, ser bom e ser alimento, no alimento, são o mesmo, segundo o sujeito e segundo a razão real significada, mas não segundo a razão intencional. Este não ser o mesmo segundo a razão intencional é o que explica o que a tradição analítica conheceu como a “supervenience of the good”, ou seja, que o bem parece acrescentar uma formalidade às formalidades que compreendemos quando descrevemos uma coisa com predicados genéricos ou específicos. — Como quando descrevemos um “morango” como “grande”, “roxo”, “suculento”, “doce”, ou como “bom”.

[Respostas às objeções:]

Ad 1. À primeira objeção se pode responder que é reflexo de uma falta de análise[7], que se traduz em uma grave deficiência lógica, que procede da tradição empirista. Se as idéias ou conceitos gerais são ou simples ou compostos, e os simples são sensações ou percepções atuais, como sustentou Locke, pareceria que toda idéia ou conceito simples consiste em uma sensação ou percepção de uma coisa ou de uma propriedade diferente de toda outra coisa ou propriedade. É esta a razão por que Moore supõe que a idéia de “bem” deve referir-se a uma propriedade diferente daquela à qual se refere a idéia de “ser”. Mas uma análise cuidadosa da experiência humana revela sem muita dificuldade que os conceitos não são percepções, como é fácil provar porque um menino de um ano tem percepções das diversas cores, mas não tem os conceitos das cores. Além disso, nem sempre os diferentes conceitos ou noções inteligíveis correspondem a diferentes propriedades reais das coisas. Os substantivos, adjetivos e verbos de ordinário têm um significado que é um conceito que constitui uma semelhança natural de uma razão real das coisas. Dois conceitos podem referir-se à mesma coisa, mas ter significados distintos por ser semelhanças de razões reais diferentes da mesma coisa, como “gato” e “branco”. Pois bem, há conceitos ou noções que são semelhança da mesma razão real, mas desde ponto de vista diferentes. Isto é o que ocorre com as noções transcendentais, que significam a mesma realidade e a mesma razão real desde pontos de vista diferentes e, portanto, significam razões intencionais diferentes. Então, embora se refiram ao mesmo sujeito e sob a mesma razão real, podem referir-se a ela sob diversos aspectos e ter diverso significado. Esta diversidade nem sempre exige a multiplicação de razões reais. Portanto, afirmar que “algo é” não equivale a afirmar que “algo é bom”, mas não implica que “bem” tenha que significar outra razão real ou outra propriedade predicável verdadeiramente[8].

Ad 2. À segunda objeção pode-se responder que, embora as proposições éticas sejam diferentes tanto das proposições que Moore chama “empíricas” como das que chama “científicas”, são-no pela referência do bem à vontade que, como vimos, não acrescenta à noção de “ser” nenhuma propriedade predicável verdadeiramente. Por estranho que possa parecer, Moore incorreu no tipo de erro que ele achaca aos “metafísicos” da tradição platônico-agostinista: supor que deve haver alguma propriedade particular (em seu caso “não existente”) que corresponda às palavras que se predicam com verdade de um sujeito.

Ad 3. À terceira objeção pode-se responder que a metafísica empirista se equivoca ao identificar os conceitos ou idéias com percepções, como ficou dito. Além disso, Hume se equivoca ao incluir entre as “percepções”, que são atos cognitivos, outros atos que claramente são apetitivos, como as paixões de amor e de ódio. Por último se equivoca quando sustenta que a captação do bom ou do mau não é outra coisa que uma reificação de uma impressão. O único motivo que pode dar verossimilhança a essa tese é que as noções de “bom” e “mau”, como vimos, contêm uma referência à vontade, que ele identifica com as paixões. Já se mostrou suficientemente que essa referência que, com efeito, entra na noção de “bem” (e, portanto, na de “mal”) não implica que
“bem” não signifique uma razão real.

 

Artigo 3. Se a máxima “obra de acordo com a natureza” incorre na falácia naturalista.

E parece que sim.

[Objeção:]

1. Com efeito, essa máxima equivale a identificar com o bem que deve promover a moral coisas que se seguem das leis estabelecidas pelas ciências naturais ou coisas que são simplesmente “normais” porque ocorrem geralmente. Mas, como sustenta G. E. Moore, é óbvio (a) que as conclusões da ciência nada têm que ver com o que seja moral, e (b) que muitas coisas excelentes são “anormais” desde o ponto de vista da ciência médico-psiquiátrica, como o gênio de Sócrates e o de Shakespeare. Portanto, nem todo bom é “normal” (§ 27).

Contra se vê que Platão ensina no livro VIII das Leis (838e) o seguinte: “[...] Tenho um arrazoado em favor desta lei que ordena usar da união procriadora em conformidade com a natureza [...].”

[Corpo da resposta:]

Respondo que o Direito Natural Clássico nasceu em luta com uma concepção semelhante à pressuposta na objeção, ou seja, a concepção sofística do Direito Natural. Por isso puderam os clássicos aclarar muito bem o sentido em que se toma “natureza” quando se fala, por exemplo, do que requerem as virtudes da moderação ou da castidade. Trata-se, como assinalou Carlos Massini[9], de um sentido metafísico que é, por isto, (a) distinto tanto “do que ocorre geralmente” como dos resultados da investigação das ciências particulares, e (b) prévio a estes últimos.

O que dá origem à objeção de Moore é que ele pensa que todo possível estudo das realidades ou “objetos” que existem, existiram ou existirão no tempo pertence às ciências físicas ou naturais, às quais chama também “ciências empíricas ou positivas”, e entre as quais inclui a psicologia (§§ 25-26). Daqui é de onde tira a idéia de que a natureza não pode dar nenhum critério moral, pois “natureza” não poderia significar outra coisa que isto, ou antes o que estudam as ciências físicas, ou antes o “normal”. Neste ponto, então, embora o propósito mooriano seja louvável, seus pressupostos e seu método o não são. Com efeito, (a) Moore não pode conceber outro modo de determinar o que é conforme à natureza senão de acordo com uma ciência natural, que, segundo ele, vem a ser o mesmo que defini-lo como o “normal”. Não pode ver que os conceitos implicados na consideração do gênio de Sócrates ou de Shakespeare nada têm que ver com a saúde que é objeto da medicina, de tal modo que qualquer médico que fale dessas matérias (exceto talvez para determinar os correlatos fisiológicos ou anatômicos) está transpassando os limites de sua disciplina. E (b) não pode conceber Moore, tampouco, que, acerca das realidades de nossa experiência, exista uma reflexão disciplinadas, não de simples “senso comum”, que não constitua uma atividade científico-natural.

[Resposta à objeção:]

Ad 1. À objeção pode responder-se que a ciência natural pressupõe conceitos e princípios que ela não prova, tomados tanto da matemática como da metafísica. Não é ciência primeira a ciência natural, tampouco no que se refere ao discurso referido às realidades de nossa experiência. Se é certo que a ciência natural pode não considerar tematicamente a unidade substancial das realidades que considera, nem a causa de tal unidade, nem a ordenação teleológica das partes dessa realidade ao bem do todo ou a finalidade que se encerra na ação dos poderes naturais, se tudo isso é certo, não é menos certo que a metafísica sim considera todos estes aspectos do real, que o faz disciplinadamente e que, por isso, pode dar lugar a uma filosofia natural ou uma antropologia filosóficas, e pode também esclarecer imprescindíveis prolegômenos da ética[10]. A máxima que ordena “obrar conforme a natureza” não deve entender-se como “obrar conforme o que ensinam as diversas ciências naturais”, porque elas não ensinam nada em relação com como deve obrar-se[11]. Deve entender-se, por sua vez, como um conselho de respeitar a ordem da natureza humana entendida em sentido de cânon, que pouco tem que ver com o “normal”, e que se distingue claramente da “natureza” tomada no sentido daquilo que está submetido à mera dominação técnica[12]

Nestes ponto conviria considerar a crítica de Germain Grisez e John Finnis ao que eles denominaram “o argumento da faculdade pervertida”, mas impedem-mo as limitações de espaço que são apropriadas para um escrito como este.


 

2. David Hume e Emanuel Kant

 

David Hume constitui um dos pontos de inflexão em uma das tradições filosóficas vivas em nosso tempo: a tradição iluminista. Dentro dela, seus argumentos desempenharam um papel importante no curso que tomaram a metafísica e a ética. Muitos desses argumentos, todavia, se se examinam bem, têm força se, e só se, se aceita de antemão o empirismo e suas doutrinas básicas. Já mencionamos uma dessas doutrinas: todas as idéias simples são percepções meramente sensoriais. Outra doutrina que se segue da anterior e que tem relevância neste contexto é a redução da vontade à paixão dominante, que tem como consequência a redução da razão ao estado de serva das paixões[13].

Há, contudo, duas observações de Hume conectadas com a questão que examinamos hoje que merecem uma discussão detida e que incluiremos nos artigos seguintes.

Emanuel Kant, por sua parte, aceita de Hume tudo o que se refere à força da experiência para dar-nos conhecimentos do bem inteligível. Ou seja, pensa, como Hume, que dos objetos de experiência não pode provir nenhum critério moral verdadeiro (ver artigo 2, objeção 3ª). À diferença de Hume, por sua vez, sustenta que a vontade não é redutível às paixões. Estes dois aspectos conjugados vão a dar lugar aos princípios fundamentais da moral kantiana. Apesar disso, o pensador de Königsberg acabará separando-se desses princípios quando se veja precisado a propor máximas morais com conteúdo.

Sem mais preâmbulos, examinemos os principais problemas que poderiam propor ao jusnaturalismo clássico as doutrinas desses dois autores, assim como os principais aportes que poderiam resgatar-se de suas obras no contexto presente.

 

Artigo 4. Se da consideração do “ser” só, ou do “bem”, pode-se extrair toda a moral

E parece que sim.

[Objeção:]

1. Com efeito, de acordo com Clarke, segundo o expõe Hume, a moral não é outra coisa que um conjunto de eternas correlações apropriadas ou inapropriadas entre realidades[14]

[Resposta:]

A isto deve responder-se, com David Hume, que não bastam essas correlações “objetivas” para dar lugar à moral, mas é preciso que elas se vinculem a um agente moral e a seu apetite [racional]. Esta observação de Hume requer uma aclaração que se discutirá mais tarde: a razão, para achar a verdade prática, deve considerar o que faria o apetite reto, pois este é a causa agente última do obrar bem. Apesar disso, pode ocorrer que uma razão que delibere bem não seja secundada pelo apetite, por onde se vê que não é esta a regra da razão prática.

 

Artigo 5. Se o “ser” ou o “bem real” pode ser alguma fonte das máximas morais.

E parece que não.

[Objeções:]

1. Com efeito, a famosa lei de Hume estabelece que um raciocínio moral incorre em uma falácia se conclui uma proposição de “dever ser” a partir de premissas cujas cópulas falam só de “ser”[15].

2. Além disso, Kant ensinou que “por dissemelhantes que sejam as concepções dos objetos, sejam elas próprias da compreensão ou até da razão em lugar dos sentidos, a sensação de prazer pela qual eles constituem o fundamento determinante da vontade (posto que é o agrado e o desfrute que alguém espera do objeto o que move a atividade para a sua produção) é sempre a mesma. Esta mesmidade não reside meramente no fato de que as sensações de prazer possam ser conhecidas só empiricamente, mas ainda mais no fato de que a sensação de prazer sempre afeta uma e mesma força vital que se manifesta na faculdade do desejo, e a este respeito uma causa determinante pode diferir de outra só em grau”[16]. Como, apesar disso, Kant postula a vontade como diferente das paixões, tem que postular também que “uma vontade livre deve encontrar seu fundamento de determinação na lei, mas com independência do material [ou conteúdo] da lei”[17]. Por isso, o preceito ético deve ser meramente formal[18], e reza assim: “Obra de tal maneira que tua regra de conduta possa ser adotada como uma lei por todos os seres racionais”[19].

Contra, o Angélico ensina que o ser do agente e a realidade do bem a que se refere a ação são os dois princípios primeiros da moral[20].

[Corpo da resposta:]

Respondo que uma moral realista sabe, como ensina John Finnis, que o primeiro princípio prático não se deriva de nada[21]. Tal princípio se formula corretamente assim: “Deve fazer-se o bem conveniente apreendido”. Como vimos, “bem” é uma noção transcendental, conversível com a de “ser”, sobre a qual temos conhecimento teórico. Quando se diz “conveniente”, inclui-se uma proporção com o agente que se pode conhecer tanto teórica como praticamente. Por exemplo, se digo aqui e agora que “um advogado sem conhecimentos de primeiros socorros não deve levantar do solo e levar a uma clínica uma pessoa atropelada com possível dano vertebral”, essa proposição é teórica. Mas se eu me encontro nessa situação e, ao deliberar, chego a esse juízo, cheguei ao conhecimento de uma verdade prática. O primeiro princípio prático, eficazmente ativo em todas as ações morais boas, inclui uma referência ao apetite: “Deve fazer-se”[22]. Como vimos, sem essa relação ao apetite não pode haver moralidade. Por isso, também o juízo com o qual acaba a deliberação[23] inclui uma referência ao apetite reto: “Isto é o que se deve fazer”. Portanto, a ordem real, existente, ou seja, a ordem do ser ou a verdade sobre o bem é o núcleo da consideração moral e inclui o apetite do agente como um elemento dessa ordem.

[Resposta às objeções:]

Ad 1. À primeira pode responder-se, portanto, que em toda deliberação entra como uma premissa explícita ou implícita o primeiro princípio prático que inclui a consideração do bem, que, como vimos no artigo 2, é consideração sobre o ser sob uma razão intencional distinta.

Ad 2. Com respeito à segunda objeção, deve dizer-se com John Stuart Mill que sem referência aos objetos nada garante que não possam pôr-se de acordo todos os sujeitos racionais em estabelecer uma lei que adoeça de loucura[24].

Além disso, o próprio Kant contradiz os supostos princípios que descrevemos na objeção quando estabelece máximas morais mais ou menos sensatas na Metafísica dos costumes[25]. O primeiro princípio da moral, como acaba de dizer-se, não se pode provar. Só se pode defender por meio de argumentos ad hominem que façam patentes ante os olhos dos contraditores que seu rechaço leva a consequências inaceitáveis para eles mesmos. Por isso é relevante mostrar que o mesmo Kant não pôde ater-se às afirmações a que havia chegado na Crítica da razão prática em contradição com o primeiro princípio[26]. Por outra parte, uma vez que se abandona o nominalismo, que postula que não podemos conhecer nos objetos de experiência bens que sejam dignos do amor da vontade ou que não podemos hierarquizar os bens senão em relação com a faculdade de sentir ou com o prazer que nos produzem, derruba-se a razão que aduz Kant para sustentar que do ser não se segue algum critério sobre o dever ser. Esse é, por certo, um dos méritos da obra de G. E. Moore, haver abandonado o nominalismo, que é a razão pela qual critica solidamente o voluntarismo moral kantiano.

Apesar disso, pressionas mais o problema porque alguns sustentam que a razão por que sabemos que uma ação concreta é má reside em certos princípios universais que se aplicam às coisas que existem, mas que não procedem delas. A isto deve responder-se que esses “princípios” da sindérese não são formais, mas têm um conteúdo que significa bens reais. A regra de ouro, por exemplo, pressupõe que sabemos o que é um dano e o que é um ser humano e que reconhecemos a um indivíduo como ser humano e uma ação concreta como danosa. Ou seja, os princípios são proposições e nenhuma proposição pode aplicar-se ao concreto se não se captam no concreto as rationes significadas pelos termos. De modo que, se as proposições podem aplicar-se ao concreto é porque se reconhece neste o que se significa naquelas. Por esse motivo, se um princípio se pode aplicar ao concreto também pode tomar-se do concreto. É verdade que os primeiros princípios da moral são naturais, mas isto não exclui que venham da experiência em sentido clássico (diferente do sentido humeano), porque nela chegamos a conceber seus termos e captar as formalidades reais das quais aqueles são semelhanças. É por isso que Aristóteles ensina no livro VI da Ética a Nicômaco que a deliberação se move entre o intelecto[27] do universal e o intelecto do particular, mas que o intelecto do universal procede da experiência do particular (cf. XI, de 1143a, 35 a 1143b, 5). Santo Tomás o segue neste ponto (cf. De veritate, q. X, art. 6).

 

Artigo 6. Se a razão prática está embebida no apetite

E parece que sim.

[Objeções:]

1. Com efeito, a verdade prática é a conformidade com o apetite reto. Donde se segue que a deliberação busca ajustar-se ao apetite reto como a sua medida, e não à natureza das coisas.

2. Por outra parte, segundo ensina Elizabeth Anscombe, a conclusão da deliberação é o elegido[28]. Logo, não pode a razão prática chegar a uma conclusão verdadeira sem a concorrência do apetite reto.

3. Além disso, para que uma consideração seja moral, deve conter uma referência ao apetite, como vimos no artigo 4. Daqui se segue o que diz Peter Simpson: “O raciocinar prático é [...] raciocinar ao serviço do desejo”.

4. Mas, todavia, a prudência, que é a virtude da razão prática, refere-se aos meios para alcançar o fim desejado pela virtude moral. Logo, a razão é abarcada pela virtude moral.

Contra está o que Aristóteles e o Angélico ensinam que alguns tipos de incontinentes podem chegar à conclusão correta, a um juízo verdadeiro, apesar de não contar com o apetite reto[29].

[Corpo da resposta:]

Respondo que, como se deriva do que estudamos no artigo 5, a verdade prática consiste na conformidade do juízo em que conclui a deliberação com a ação realmente devida. O caráter de “devida” da ação não se segue de que o apetite a exija, pois o apetite mesmo pode ser reto ou torcido. Precisamente a “retidão” do apetite depende de que exista a proporção realmente devida entre o agente e os bens que deseja e elige. A proporção, por sua vez, depende da natureza e disposições do agente, dos bens que se encontrem na situação em que há de obrar e da hierarquia dos mesmos, de todas as circunstâncias e da ordenação ao bem comum político ou cósmico. Tudo isso é matéria que o intelecto ou a razão humana capta e investiga[30], porque, tal como o entendeu Peter Simpson, a intelecção do bem conveniente é a causa final universal das ações humanas, enquanto que a vontade é a causa eficiente universal[31]. Um homem que não esteja de todo corrompido tem a possibilidade metafísica, por isso, de captar o bem prático que ele não ama o bastante como para realizá-lo. E nenhum homem está por inteiro corrompido: por isso não pode eliminar-se de todo o primeiro princípio prático ou moral, pelo que sempre pode este constituir, nesta vida, um terreno comum para a discussão moral.

[Resposta às objeções:]

Ad 1m. À primeira objeção deve responder-se que a expressão “conformidade com apetite reto” é, em parte, o que Max Weber e Eric Voeglin chamaram um “conceito tipo”[32]. A tradição jurídica romanista estabelece um conceito semelhante quando, para determinar se um dano foi causado com culpa, pergunta-se se o agente atuou com a diligência que se pode exigir a um “bom pai de família”. Ou seja, a razão que delibera bem tem que encontrar o que elegeria o apetite reto, e pode fazê-lo mesmo quando o agente que delibera não tenha ele mesmo um apetite reto. Um juíz pode saber qual seria a decisão justa em um caso, mesmo se ele fosse iníquo, sempre que, precisamente, investigue “o que é justo neste caso”, sempre que pressuponha que se deva buscar o que desejaria o apetite reto. Claro que no caso da verdade prática sua relação com o apetite reto é mais intensa que a relação entre o agente e o conceito do bom pai de família no caso dos danos derivados de culpa, porque no da verdade prática o juízo é verdadeiro se determina o que é proporcionado ao que desejaria o agente, se fosse bom.

Ad. 2m. À segunda objeção deve responder-se que a conclusão da deliberação não é “o elegido” como sustenta Elizabeth Anscombe, mas “o elegível”[33]. Por isso se pode deliberar bem e não eleger o deliberado. Neste caso, por certo, a razão prática não tem sua virtude própria, que é a prudência, embora raciocine bem, porque lhe falta o império.

Ad 3m. À terceira objeção se deve responder que o raciocinar ao serviço do desejo pode entender-se já seja como raciocinar ao serviço do desejo mais fundamental da vontade, que é o desejo do bem conveniente; já seja como raciocinar ao serviço do apetite reto entendido como conceito tipo, segundo se explicou. Em nenhum dos dois sentidos se significa que o intelecto fique embebido no apetite, mas se abre à realidade, como ficou dito.

Ad 4m. À quarta objeção deve responder-se que a prudência não se refere só aos “meios” para alcançar o fim perseguido pelo apetite reto, mas a “aquelas coisas que se ordenam a este fim”. Mas entre essas coisas se conta de modo principal, precisamente, a determinação daquilo no que consista o fim aqui e agora, como se vê no exemplo do juíz iníquo que se deu na resposta à primeira objeção: o objeto de seu conhecimento, quando pressupõe que busca o que desejaria o apetite reto, reside em determinar em que consista a justiça no caso concreto, ou seja, em que consista o meio da virtude no caso concreto. É por esse motivo que Aristóteles ensina que a virtude sem prudência seria cega[34], que a prudência é a auriga de todas as virtudes[35] e que Sócrates tinha certa razão, porque, embora não pode reduzir-se a virtude moral à prudência, não há verdadeira virtude moral sem prudência[36]. Santo Tomás o segue em tudo isso, e aclara que o que é próprio da prudência é determinar o “meio” entre dois extremos em que consiste a ação virtuosa, o que não é diferente de determinar o fim no concreto, mas sim é diferente de determinar “os meios” que se ordenam ao fim[37].


 

3. Conclusão

 

Penso que agora estamos em condições de afirmar as seguintes teses: Aristóteles não incorreu na falácia naturalista, tal como a concebeu G. E. Moore. O bem como transcendental se identifica com o ser, tanto no sujeito como na razão real significada, embora não na razão meramente intencional. Ser e bem se podem conhecer ambos com o intelecto em sua função teórica ou em sua função prática, e se pode afirmar proposicionalmente a realidade do bem. A frase “é preciso obrar conforme a natureza” pode entender-se de uma maneira que não entranhe a falácia naturalista. A consideração do bem só não pode dar lugar a uma afirmação moral, pois requer-se a referência do bem ao agente e a seu apetite. Apesar disso, o que deve querer o apetite o determina o intelecto ao considerar diversos bens reais em sua relação e proporção com o agente e seus apetites, de tal maneira que as máximas morais, até os princípios primeiros, procedem da experiência. E, por último, a deliberação não está subsumida no apetite, embora não possa haver virtude da razão prática sem retidão do apetite.

E com isto me parece que se aclarou apreciavelmente o panorama na consideração deste importante grupo de problemas propostos por numerosos autores contemporâneos, com ocasião de vários argumentos e reflexões de G. E. Moore, David Hume e Emanuel Kant.


 

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Carlos A. Casanova

Universidad Santo Tomás, Chile

Universidad Bernardo O’Higgins, Chile

carlosacasanovag@gmail.com



[1][1] Cf. Ética a Nicômaco, lib. I, cap. VI, de 1096a, 11 a 1097a, 14.

[2] Fê-lo em Locke, J., Ensayos sobre el entendimiento humano, Buenos Aires, Fonde Cultura Económica, 1956, livro II, capítulos 20-21.

[3] Cf. Hume, D., Treatise of Human Nature, Oxford, Oxford University Press, 1896, livro III, parte I, seção I. Também, livro II, parte III, seção III.

[4] De veritate, qq. I, art. 1; XXI, art. 1.

[5] Simpson, P., “Saint Thomas and the Naturalistic Fallacy”, The Thomist, 51 (1984), pp. 51-69.

[6] Moore observa, como nós, que o bem não se pode definir, mas se funda em uma razão errada. Moore afirma, com efeito, que o bem não é definível porque é uma noção simples, e, de acordo com a teoria empirista da definição, pode-se definir uma noção somente quando se compõe de muitas propriedades ou qualidades que podem pensar-se ou perceber-se separadamente, e que se podem enumerar (§§ 6, 8, 13).

[7] Moore não percebe que chegou a um beco sem saída, mas passa a conceber “aquilo que deve existir”, o “bem em si” que deve promover a ação humana, como algo irreal, ficcional, como uma utopia ou um ideal. Aqui já se desliza sem atinar-se a isso para o terreno da ideologia (§ 71).

[8] Recorde-se, ademais, que “bom” se entende de muitas maneiras: existe o “bem metafísico” e o “bem moral”; e ambos se dividem no “bem honesto”, no “bem útil” e no “bem deleitável”. Só o primeiro tipo pode identificar-se, em um de seus sub-sentidos, com o ser.

[9] Cf. Massini, C., La falacia de la falacia naturalista, Mendonza, Editorial Idearium, 1995, p. 45.

[10] Finnis, J., Natural Law and Natural Rights, Oxford, Oxford University Press, 2011, tem toda a razão em que a ética existe antes da metafísica. Mas ele também observa que há realidades ou dimensões da realidade sobre as quais toca à metafísica refletir disciplinadamente e que a ética pressupõe. Uma vez que apareceu a metafísica, uma desviação desta pode obscurecer esses pressupostos da ética e requerer uma nova aclaração metafísica. Tal é a tarefa que estamos realizando neste momento.

[11] A medicina, por exemplo, pode prescrever condutas, não porém enquanto ciência natural, mas enquanto arte da saúde.

[12] Sobre este tema e sobre esta distinção falei largamente em: “¿Por qué tiene tantas dificultades la razón natural en nuestra época para reconocer las doctrinas centrales de la encíclica Humanae Vitae?”, em Razón y tradición. Estudos em honra de Juan Antonio Widow, Santiago, Editorial Globo, 2011, pp. 353-377.

[13] Cf. Tratado sobre la naturaleza humana, livro II, parte III, seção III. Também, livro III, parte I, seção I.

[14] Cf. Tratado sobre la naturaleza humana, livro III, parte I, seção I. Que o autor criticado por Hume seja Clarke, é algo que John Finnis mostra em sua obra Natural Law and Natural Rights, Oxford, Oxford University Press, 1980, pp. 33-48; e 2011 (segundas edição), capítulo II, seções V-VI, pp. 36-48.

[15] Até este argumento humeano é circular. O que quer dizer o pensador escocês é simplesmente que a faculdade cujo objeto são as idéias e a relação destas com os fatos ou entre si, a razão, só pode conhecer o “ser”; enquanto que o “dever ser” é um assunto de “impressões”, que constituem o outro tipo de “percepções” segundo o empirismo humeano, e que se encontram, por definição desse mesmíssimo empirismo, fora do objeto da razão.

[16] Parte I, livro I, capítulo I, teorema II, observação I, p. 42 da edição original.

[17] Problema II, parte I, livro I, capítulo I, p. 140 (p. 52 da edição original).

[18] Observação para a Lei fundamental da razão pura prática, p. 143 (p. 56 da edição original): “Em ordem a compreender esta lei, [a lei fundamental da razão pura prática], alguém deve notar que não é um fato empírico, mas o só fato da razão pura, que se proclama a si mesmo como originariamente legislativo (sic volo, sic iubero)”. Hans Kelsen não faz senão seguir a Kant neste ponto. Cf. Teoría pura del Derecho, Valladolid, Editorial Trotta, 2011 (tradução da primeira edição de 1934), § 8.

[19] P. 54 da edição original.

[20] Cf. Super Sententiis, lib. II, d. XLI, q. I, art. 1 co.; Summa theologiae, I-II, q. XXIa, art. 1 co.

[21] Cf. 1980, pp. 33-34. Citado por Carlos Massini, 1995, pp. 61-62.

[22] Devo a uma observação de Marco Antonio Navarro uma precisão na maneira de formular o primeiro princípio prático. Tomou ele sua observação, segundo me disse, de uma ora de Ana Marta González.

[23] Cf. Carlos A. Casanova. “Una reconsideración del De Motu Animalium y el silogismo práctico”, em Pensamiento, vol. 65, nº 44 (2009), pp. 339-353.

[24] Cf. Utilitarianism, capítulo I, p. 165-166; e capítulo V, p. 216. Em: Plamenatz, John. The English Utilitarians, Oxford, Basil Blakewell, 1949, pp. 161-228.

[25] O que ocorre nesta obra é o que havia assinalado de modo geral Etienne Gilson n’O realismo metódico. Ou seja, que por meio de uma volta às coisas preenche-se de “substância” os princípios supostamente formais, preenche-se de conteúdo realista a ética (Cf. El realismo metódico, Madrid, Ediciones Rialp, 1974, p. 122). Com efeito, Kant não pode ficar com o imperativo categórico puramente formal da Crítica da razão prática, mas tem que preenchê-lo de conteúdo. Como o faz? Por meio da seguinte declaração: “[...] Uma metafísicas dos costumes não pode fundamentar-se na antropologia, mas, apesar disso, pode aplicar-se a ela” (p. 217 da edição da Academia de Berlin, segundo a tradução de Adela Cortina e Jesús Conill Sancho. Editorial Tecnos, Madrid, 2008). Além disso, Kant pressupõe que se pode conhecer aos outros enquanto outros e reconhecer deveres com respeito a eles. Neste ponto incorre no mesmo problema que na Fundamentação da metafísica dos costumes, quando na segunda formulação do imperativo categórico sustenta que deve tratar-se a humanidade, em si e nos outros, como um fim em si mesmo e não como um mero meio. — Porque ali não se estabelece um princípio meramente formal. Com efeito, captar o que é de algo supõe captá-lo como ser. Isto, por sua vez, supõe captá-lo como outro, distinto de mim. Edmund Husserl, igual a Kant, aceitava isto só dos outros “sujeitos transcendentais”, mas, como bem observou Edith Stein, não há razão alguma para aceitar a alteridade dos outros sujeitos se não há razão para aceitar a alteridade do ser sensível em geral. Com efeito, os outros sujeitos se nos dão em suas manifestações sensíveis (Cf. Potenz und Akt. Studien zu einer Philosphie des Seins, ASW 18, 1998, p. 256. Citado por Teruel, Pedro Jesús. “Edith Stein y el problema de la Konstitution”, pp. 91-92. Diálogo filosófico 58 [2004], pp. 79-96). Isto se aplica também à captação relevante à moral. Se não posso captar os outros homens enquanto seres dignos de um certo trato moral, nem sequer posso postular a “constituição” de alguma intersubjetividade.

[26] Tampouco Kelsen pôde: afinal, a determinação do dever requer a constatação de certos fatos relativos, por exemplo, a qual seja a Constituição vigente. Max Silva fez uma observação análoga, com particular força, em seu estudo sobre Norberto Bobbio: cf. Derecho, poder y valores. Uma visión crítica del pensamento de Norberto Bobbio, Granada, Editorial Comares, 2008, pp. 280 e 398.

[27] N. T. Este “intelecto” é melhor entendido como “inteligido”, particípio do verbo intellegere. Faço esta observação para distinguir entre “intelecto” como potência da alma, e “intelecto” como algo que foi inteligido da coisa, distinção que o mesmo Santo Tomás parece sutilmente fazer.

[28] Cf. Intention, Oxford, Oxford University Press, 1958, pp. 60-61. Citada por Martha Nussbaum. “Essay 4”, p. 186. Em: Aristotle’s De Motu Animalium, Princeton, Princeton University Press, 1978, pp. 165-220.

[29] Cf. Ética a Nicômaco, lib. VII, cap. III, 1147b, 9-12.

[30] Cf. Summa theologiae, II-IIa, q. XLVI, art. 6. Quando os consequencialistas dizem que as normas morais tal como as concebe o jusnaturalismo clássico são tautológicas porque o que proíbem não é matar, mas o “homicídio”, que inclui já a deformidade, não têm razão. Mas não a têm precisamente porque os tipos de ações más ou boas surgem da experiência, onde o intelecto percebe a deformidade ou falta de proporção de uma conduta, em relação com todo o contexto em que se demarca. Esta prioridade do concreto é o que converte a ética em uma disciplina tópica ou dialética.

[31] Isto implica, apesar disso, que a ordenação inicial da vontade é obra do Autor de nossa natureza, pois, de outra maneira, não poderia mover-se o intelecto a realizar seu primeiro ato. Cf. o comentário ao De Trinitate de Boécio, proêmio, q. I, art. 3, ad 4m.

[32] Cf., por exemplo, “The Meaning of Ethical Neutrality in Sociology and Economics”, p. 41-44. (Em: Max Weber on the Methodology of the Social Sciences, The Free Press of Glencoe, Illinois, 1949, pp. 1-47).

[33] Cf. Ética a Nicômaco, lib. III, cap. III, 1113a, 2-5.

[34] Cf. Ética a Nicômaco, lib. VI, cap. XIII, 1144b, 20-25. Cf., também, Summa theologiae, II-II, q. XLVII, art. 6, ad 3.

[35] Cf. Ética a Nicômaco, lib. VI, cap. XIII, 1144b, 1-14.

[36] Cf. Ética a Nicômaco, lib. VI, cap. XIII, 1144b, 14-30.

[37] Cf. Summa theologiae, II-II, q. XLVIIa, art. 7: “Per rectam dispositionem eorum quae sunt ad finem medium invenitur”. Fabio Morales é uma das primeiras pessoas a quem eu ouvi defender esta tese. Fê-lo em La deliberación en la ética de Aristóteles, seu trabalho de ascenso a professor titular, apresentado no ano 2002 ao Departamento de Filosofia da Universidade Simón Bolívar, pp. 67 e ss.; 152 e ss.; 158-162.


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