[REFLEXÃO] Os hobbits e a vida moderna.
Emerson Pereira
No mundo fantástico da Terra média de Tolkien, gosto de ver nos Hobbits, acima de tudo, um "tipo" de ser humano, de ser pessoa humana, um modo habitual de ser. Os Hobbits amam a vida simples, pacata, vivida intensamente em coisas consideradas "sem graça" aos olhos menos inspirados, são o oposto daqueles "orques" mais tragados por um ritmo de vida pouco humano, porque é pouco espiritual, a uma espécie de ritmo alucinante e amante daquilo que causa uma impressão rápida na alma, mas não raras vezes superficial, pois um tal tipo de ser humano, excessivamente industrial e exterior não quer "perder tempo" demais em um só objeto, após este perder sua impressionabilidade sensível mais manifesta.
Os Hobbits amam a profundidade que há nas coisas simples, naquelas coisas com as quais eles se deparam todos os dias, são desde cedo inseridos num ritmo de vida orgânico, tranquilo, pacato, harmônico, e que engendra, afinal, uma atitude toda contemplativa e imersiva na beleza das coisas. Eles amam aquela beleza profunda que se descortina por detrás da realidade aos que têm paciência amorosa de "corteja-la" com respeito e certa receptividade.
Mesmo os Hobbits mais aventureiros assim o são para poderem contemplar as belezas do além-mundo hobbitesco, e em nenhum momento perdem a simplicidade de seu coração. Mesmo Bilbo, insatisfeito no condado e ansioso por rever as montanhas, não perdeu o espirito contemplativo, mas expressa, em seu modo aventureiro, um anseio de ver mais uma vez aquelas belezas estupendas, não com uma atitude exterior e de impressionabilidade, mas que verdadeiramente repousa seu espirito prolongadamente no que vê.
Em uma época excessivamente exterior, curiosa, impressionável e vivida em ritmos industriais, nada mais louvável que celebrar um modo simples e pacato de viver, mesmo em meio às agitações. Ter uma atitude interna de Hobbit é o que nos permitiria ver as belezas mais profundas desse mundo, trazendo ao nosso coração a paz da contemplação, e, indo mais além, ter uma uma atitude progressivamente amorosa, receptiva e "orgânica" com a Beleza Eterna, colaborando com Seu chamado e Sua graça, é o que permitiria em nós o pleno desabrocho da capacidade de ver a beleza mais radical das coisas, vendo cada vez mais tudo "a partir" da Beleza Eterna, em união de intimidade com Ela, vendo tudo em ordem a Ela, percebendo Sua assinatura em cada beleza criada, nos mínimos detalhes, escondidos aos olhos de "Orques", dos que estão perdidos na 'vida psíquica' e sob a cegueira da fumaça de Mordor.


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